Cinema

Inesquecíveis 018 – Blade Runner – O Caçador de Andróides (1982)

Não foi imediatamente, mas Blade Runner transformou-se em um clássico cult do gênero de ficção científica pouco tempo após o lançamento. Na época, o principal efeito foi o lançamento em VHS. Mas é claro que também por causa da reputação de Philip K. Dick (apesar de só receber maior atenção após sua morte em 1992), autor do livro “Andróides Sonham Com Ovelhas Negras?” (1968) que serviu de adaptação para o roteiro escrito por Hampton Fancher e David Peoples, cuja bibliografia nesse gênero vinha sendo construída desde os anos 50 e conquistado uma porção boa de leitores.

Mas possivelmente não estaria aqui falando sobre Blade Runner se o filme não tivesse virtudes que o colocassem como um dos principais do seu gênero até hoje, já pronto para receber uma sequência que estreia nos cinemas no dia 5 de Outubro. O filme dirigido por Ridley Scott é eficiente, não apenas porque prevê a paranoia que impera hoje num mundo tão virtual, mas também pela obsessão do ser humano no desenvolvimento da clonagem humana e em desbravar o espaço.

A figura do Caçador de Andróides surge dessa combinação obsessiva. Dick Deckard (Harrison Ford) interpreta o mais respeitado deles, tendo seus serviços requisitados novamente após um grupo de quatro andróides geneticamente criados, também conhecidos como replicantes, para servirem como escravos em colônias de humanos espalhadas no espaço terem fugido e entrado na Terra, um planeta irreconhecível o qual as pessoas são convidadas a saírem porque, aparentemente, a vida “lá em cima” parece ser melhor. Entre eles no grupo um andróide (Rutger Hauer) da versão Nexus 6, a mais avançada criação do engenheiro Dr. Eldon Tyrell (Joe Turkel).

A criação de Tyrell desperta nesses seres uma consciência programa com risco, já que são descartáveis após quatro anos de uso. Mas essa evolução leva a um motim e por serem tão parecidos com os humanos os detetives são obrigados a conduzirem um questionário para confirmarem se são replicantes ou não. A inquietação da humanidade no filme leva à produção desses ciborgues, mas se tem algo que o homo sapiens não suporta é outros seres disputarem o lugar com eles – como bem narra o escritor israelense Yuval Noah Harari no livro “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade” (2011).

É com esse pano-de-fundo que o filme de Ridley Scott consegue estabelecer um clima de tensão e claustrofobia. A fotografia de Jordan Cronenweth imersa seus personagens em ambientes fechados e escuros, nunca os deixando sentir a luz natural do dia, além de exibir todo o pessimismo em relação ao futuro que a própria humanidade criara para si. Apesar do design de produção assinado por Lawrence G. Paull contribuir pouco (sempre sinto uma confusão de objetos em cena), Blade Runner guarda boas decisões que não comprometem a falta de tecnologia disponível na época para traduzir determinadas sequências.

Isso na verdade torna o filme ainda mais interessante. E pra mim isso passa pela escolha de não interpretar a caçada aos andróides, e ocasionalmente as suas mortes, como corriqueiras ou necessárias em prol da boa vivência da humanidade. Foram (desculpa o termo) “nós” mesmos que criamos os replicantes. Assim, cada andróide caçado por Deckard é encarado como um peso, um fardo que choca pelas imagens em slow motion. Isso explica o fato de Deckard ser salvo na última cena pelo mesmo Nexus 6 que ele estava caçando – além, é claro, do seu próprio envolvimento amoroso com Rachel (Sean Young), que ajuda lhe ajuda sim a enxergar os replicantes de uma forma mais humana.

Hoje vemos que uma cena como a de Dick dando comandos para um scanner é tão normal quanto acordarmos todos os dias e irmos trabalhar (ou estudar). Sim, nossa vida foi se tornando pouco a pouco tão computadorizada que é impossível ficar um dia sem estar conectado, um termo usado nos primórdios da Internet para dizer que estávamos online, e que agora surge para nos dar um senso de comunidade e pertencimento a um meio tão repleto de superficialidade. Por isso Blade Runner se transformou, década após década, em uma obra tão relevante e influente até hoje.

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