Cinema

Inesquecíveis 019 – Alice Não Mora Mais Aqui (1974)

Há uma história particular por detrás de Alice Não Mora Mais Aqui (1974) que descobri muito depois de ter visto o filme. A atriz Ellen Burstyn, que ganhou o Oscar de Melhor Atriz por sua atuação no filme, encontrou o roteiro do longa-metragem e passou a trabalhar em cima daquela história e a procurar um diretor para filmar. Foi então que ela recebeu o diretor Martin Scorsese como referência (dica dada por ninguém menos do que Francis Ford Coppola), que havia acabado de filmar Caminhos Perigosos (1973). Burstyn conta que “apesar de ter gostado muito do primeiro trabalho de Scorsese, não acho que você saiba alguma coisa sobre mulher”. Scorsese, então, responde: “é verdade, eu não sei, mas quero muito aprender”.

Foi o suficiente para convencê-la de que tinha encontrado o diretor certo. E a jornada de Alice Hyatt (Burstyn) passa mesmo por uma curva de aprendizado que acompanhamos, marcada por despedidas, momentos trágicos, alguns tristes e outros também alegres. Não é somente ela que está se descobrindo como mulher aos 35 anos, mas os próprios espectadores também descobrem o que ela é capaz como mulher nessa idade, indo muito além do que ser a dona de casa que costura, cuida do filho e recebe o marido ao final do expediente com a mesa toda pronta, pronta para servi-lo.

Em Alice Não Mora Mais Aqui, Burstyn interpreta uma mulher que, com a trágica e repentina morte do marido Donald (Billy Green Bush), se vê completamente sozinha, com o seu filho Tommy (Alfred Luther III) de 12 anos para criar e sem saber o que fazer uma vez que ela não foi preparada para viver uma situação como esta. Apesar da sua dedicação ao marido, Alice não tinha um relacionamento exemplar com o seu companheiro, que a tratava mal, batia no próprio filho e estava sempre de péssimo humor. E o luto começa a dar lugar à oportunidade de finalmente seguir o seu sonho de criança em ser cantora.

Foto: Reprodução

É aí que Alice Não Mora Mais Aqui parte em uma jornada que mescla as características de um road movie com o gênero dramático familiar típico, de reviravoltas que afastam e aproximam a protagonista dos seus objetivos, ao mesmo tempo que viajando de carro por várias cidades a coloca para enfrentar a dura rotina de procurar emprego e aceitar qualquer coisa que oferecessem para ganhar dinheiro, ou seja, se virar como toda mulher se acostumou fazer desde sempre – sem nunca serem reconhecidas pelos homens, por sinal. Aliás, a figura masculina em Alice Não Mora Mais Aqui constantemente sufoca as femininas, seja através do seu egoísmo ou por acharem que podem simplesmente fazer o que quiserem, cabendo à mulher apenas obedecer.

Alice Não Mora Mais Aqui vai contra a maré de retratar a mulher como essa figura frágil que não sabe se cuidar. Considerado um dos primeiros filmes “sob o ponto de vista da mulher”, Alice Não Mora Mais Aqui também se torna essencial porque acompanhamos o amadurecimento da relação entre mãe e filho que se estreita à medida da aproximação dos dois. E assistimos muitos momentos de altos e baixos nessa relação, desde a divertida cena de ambos brincando num quarto de hotel, até a necessidade de uma dura punição para mostrar respeito e aprendizado. Para isso, Alice Não Mora Mais Aqui conta com uma direção segura e eficiente de Martin Scorsese, trazendo uma câmera muito mais sensível que expõe as fragilidades e forças da sua protagonista de forma convincente – muito também por causa da atuação brilhante de Burstyn.

Há momentos de enorme alegria no filme, como na já citada cena divertida no quarto de hotel, mas outros também tristes e violentos, como na sequência em que um dos homens com quem Alice se relaciona em uma cidade invade a sua casa atrás da sua esposa, que foi conhecer a amante do marido. É uma cena que mostra o quanto os homens se sentem no poder para explorar a mulher. E apesar de ter sido feito na década de 70, Alice Não Mora Mais Aqui também é um filme atual ao narrar a trajetória de Alice da forma como acompanhamos na tela, dando independência para ela tomar suas próprias decisões (sejam acertadas ou não).

Foto: Reprodução

Apesar de mover a câmera excessivamente em alguns momentos, Scorsese oferece dinâmica à história ao mesmo tempo que entende o estado reflexivo da sua protagonista em outras situações, adotando inclusive aquele movimento que ficou característico do seu cinema de se aproximar rapidamente do rosto da personagem para dar um tom de urgência e importância. Mas quem brilha mesmo em Alice Não Mora Mais Aqui é Ellen Burstyn, segura em cada quadro e consciente sobre o significado que Alice tinha fora daquela história, podendo servir de exemplo e inspiração para outras mulheres se enxergarem na mesma posição que ela se encontrava.

Com o estúdio (Warner Bros.) colocando pressão em Scorsese e na produção do filme para entregarem um final feliz à história, é ainda mais convincente a saída encontrada pelo diretor e roteirista quando a última linha do roteiro de Robert Getchell é Tommy dizendo à sua mãe “não consigo respirar”. Imediatamente me recordo da canção “Debaixo d’Água”, escrita por Arnaldo Antunes, sobre a ideia do bebê se sentir confortável e seguro na barriga da mãe. O abraço e a caminhada que fazem juntos ao final tem efeito similar, sendo aquele momento o suficiente para entendermos que os dois são a segurança que precisam e não existe a necessidade de nenhuma terceira figura para complementar o carinho que desenvolveram como mãe e filho.

Por outro lado, Alice Não Mora Mais Aqui também passa a sensação de que essa mulher que assistimos na tela pode conseguir o que bem quiser depois de tudo que decidiu enfrentar e suportar.

Assista o trailer:

Alice Não Mora Mais Aqui (Alice Doesn’t Live Here Anymore, 1974)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Robert Getchell
Elenco: Ellen Burstyn, Billy Green Bush, Kris Kristofferson, Alfred Luther III, Harvey Keitel, Diane Ladd e Jodie Foster.
Duração: 113 minutos

[Crédito da Imagem de Capa: Reprodução]

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