Inesquecíveis 020 – Cléo de 5 às 7 (1962)

Quando se fala em Nouvelle Vague, o famosa movimento da “nova onda” francesa, surgem os nomes de sempre como Jean-Luc Godard, François Truffaut ou Jacques Rivette como os grandes precursores que elevaram o cinema no país. Em nenhuma dessas listas se inclui o nome de uma mulher: Agnès Varda. Talvez a explicação mais certeira seja por causa do machismo imperativo daqueles dias. A verdade, no entanto, é que Agnès Varda se mostra uma diretora tão singular quanto Godard e tão sensível quanto Truffaut. E já em seu segundo filme, Cléo de 5 às 7 (1962), a cineasta revela justamente essas duas facetas.

Além de dirigido, Agnès Varda também escreve o roteiro desse longa-metragem que se caracteriza pela angústia de acompanharmos duas horas da vida da protagonista Cléo (Corinne Marchand) em um momento de muitas incertezas na sua vida. Esperando um importante diagnóstico que poderá indicar que ela sofre ou não de um câncer terminal, Cléo tenta se amparar em qualquer coisa que a faça ter esperança de que o resultado possa ser outro – ou mesmo que lhe faça esquecer por um momento a angústia da espera. E por causa do drama que vive, Cléo observa o mundo a sua volta de uma forma diferente.

Iniciado por uma sequência em cores quando Cléo se consulta com o tarô, o filme de Agnès Varda é preenchido imediatamente pelo preto e branco que marca a narrativa até o final, tendo tudo a ver com a história que conta adotando um tom muito parecido com aquele visto em Os Incompreendidos (1959), porque se equilibra entre e a leveza e a seriedade. Varda vai entregando a sua personagem aos poucos, quando descobrimos que Cléo, na realidade, é uma talentosa cantora em seu melhor momento na carreira, por exemplo. E como é possível notar, alguém muito jovem para ser diagnosticada com uma doença que poderá tirar a sua vida enquanto ela ainda tem tanto para viver e fazer. Ao vermos Cléo olhando a cidade de outra forma, ou interagindo com os seus amigos como se fosse uma última vez, são apenas algumas das indicações que carregam as sensações de incertezas tão presentes no filme.

E Cléo de 5 às 7 consegue realmente traduzir os sentimentos da protagonista para nós, espectadores. A montagem e a estrutura se destacam em meio à direção precisa de Varda, que capta a sua protagonista em seus momentos mais vulneráveis desde a belíssima sequência em que ela ensaia com a sua banda (quase em um tom de despedida) até o diálogo com um estranho soldado militar que ela encontra no parque que, assim como ela, está também observando a cidade de outra forma já que em poucos minutos terá que deixar Paris para ir à guerra, na Argélia. Varda nunca se afasta de Cléo, ainda mais quando ela enxerga tantas pessoas cheias de vida à sua volta enquanto a sua parece estar se esvaindo. Sua câmera apoia o que ela está passando, que é repassar toda a sua vida até aquele crucial momento.

Indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1962, Cléo de 5 às 7 é uma obra marcada pela bela trilha sonora conduzida por Michel Légrand (Os Guarda-Chuvas do Amor, filme dirigido por Jacques Demy, marido de Varda) e traz a atriz Corinne Marchand em ótima atuação, vivendo Cléo sem nunca cair nos excessos de uma dramatização forçada que poderia encobrir sentimentos verdadeiros que o roteiro e a direção de Agnès Varda alcançam. O filme ainda reserva um momento mágico, quando Cléo assiste um filme-mudo, Os Noivos da Ponte Mac Donald (1961), dirigido pela própria Agnès Varda e protagonizado por Jean-Luc Godard e Anna Karina (casados na época).

Mesmo podendo ser vista como uma narrativa trágica, Varda prefere em Cléo de 5 às 7 um outro tipo de tom. E acerta ao encher o filme de passagens marcantes que traduzem um único sentimento: esperança. É justamente o que, no final das contas, acaba nos mantendo vivos. Assista o trailer:

Cléo de 5 às 7 (Cléo de 5 à 7, 1962)
Direção: Agnès Varda
Roteiro: Agnès Varda
Elenco: Corinne Marchand, Antoine Borseiller, Dorothée Blank, Jean-Claude Brialy e Dominique Davray.
Duração: 90 minutos

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