‘Lady Bird’ capta a adolescência como poucos filmes

Ser adolescente significa, entre outras coisas, sonhar, brigar com os pais, se apaixonar pela primeira vez (e se desiludir), ser rebelde e viver tudo intensamente. Decisões são tomadas na mesma velocidade com que chegam os arrependimentos por terem tomá-las, preenchendo uma mente inquieta e que ainda busca um lugar num mundo para chamar de seu.

É nessa dinâmica que Lady Bird – A Hora de Voar, filme de estreia da diretora e roteirista Greta Gerwig (Frances Ha), se situa ao acompanhar Christine ‘Lady Bird’ McPherson (Saoirse Ronan, mais uma vez impressionante) em seu último ano como estudante em um colégio católico na cidade de Sacramento, um espaço igualmente importante para contar a história dessa personagem – que, em parte, é baseada nas próprias memórias de Gerwig.

E é impossível não se relacionar com a história de Lady Bird. Estudei em colégio católico durante toda a minha vida e vê-la se rebelando contra certas tradições que fazem parte dessas instituições me lembrou e muito a minha própria rebeldia em certo período da minha juventude. Talvez eu apenas não conheça, mas confesso que não vejo histórias como a dela sendo (tão bem) contada no cinema. Li em uma entrevista recente da diretora Greta Gerwig que as histórias juvenis ficaram imortalizadas com a assinatura de John Hughes, mas que ela sentia falta de um aprofundamento. O que é verdade, principalmente se pensarmos na trama sendo contada através da perspectiva de uma menina – e desenvolvida a partir de uma relação tão intensa com a mãe Marion (Laurie Metcalf, deem um Oscar pra ela, por favor), com ambas tendo um relacionamento no limite entre o amor e o ódio.

Estabelecendo desde os primeiros diálogos uma narrativa leve, Lady Bird e a mãe podem estar discutindo fervorosamente sobre qual universidade ela vai estudar (e que pode ser paga) ou sua dúvida se é amada ou não por ela, o fato é que não demora muito para as brigas cessarem e as pazes serem feitas imediatamente. Para equilibrar isso, Lady Bird conta com a proteção e afago do pai Larry (Tracy Letts, também ótimo), uma figura que ajuda a alimentar seus sonhos mas que nunca substitui a essência da mãe. Se os conflitos familiares são bem desenvolvidos e controlados pelo roteiro e a direção de Greta Gerwig, o mesmo pode ser dito sobre as histórias que se passam dentro da escola, os amores passageiros com Danny (Lucas Hedges) e Kyle (Timothée Chalamet).

A história mais uma vez nos envolve quando Lady Bird finge se passar por alguém que ela não é só para fazer parte de um certo grupo de estudantes, aquele tido como popular e que muitos querem fazer parte (porque sente inveja, ou porque ainda está procurando o seu espaço). Aliás, tudo é contado com tanta realidade que Lady Bird se transforma em um filme inspirador e adorável justamente pelos traços humanos da história. A sequência final é a que ainda fica mais em minha memória, quando Lady Bird, após sua primeira bebedeira na faculdade, acaba recorrendo a uma missa dominical e uma ligação para a sua mãe. Porque são essas referências e esses laços afetivos que muitas vezes nos salvam de seguir por um caminho que não é certo.

E Lady Bird nos inspira a olhar para trás e se orgulhar da trajetória que teve. Assista o trailer:

Lady Bird – A Hora de Voar (Lady Bird, 2018)
Direção: Greta Gerwig
Roteiro: Greta Gerwig
Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Lois Smith e Stephen Henderson.
Duração: 93 minutos

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