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‘Le Bureau des Légendes’ quase decepciona, mas se redime no final da 3ª temporada

A série francesa exibida pelo Canal+ Le Bureau Des Légendes teve grandes méritos nas duas primeiras temporadas. Recebeu tantos elogios (inclusive por este blogueiro) que os Estados Unidos estão preparando uma adaptação que, a princípio, vai se chamar The Bureau. Ambientada no Diretório de Inteligência Francesa (o DGSE), que é como a CIA dos EUA, a série criada por Eric Rochart se inspira claramente nos conflitos atuais envolvendo o Estado Islâmico e as tensões evocadas pelo terrorismo para construir sua narrativa.

E após ser arrebatado pelas temporadas iniciais, a terceira é quase uma decepção. Desde o final da segunda que levantei minha preocupação sobre o futuro da série que, confortável em narrar as intrigas do DGSE, se preparava para sair da zona de conforto e expandir sua narrativa a partir de um cliffhanger inesperado no fim da 2ª temporada. Mas foi justamente esse ponto de virada que por pouco não fez com que a série caísse em sérias armadilhas.

[ATENÇÃO: SPOILERS A PARTIR DAQUI]

Sim, a captura de Guillaume Debailly (cujo codinome é Paul “Malotru” Lefevbre, interpretado brilhantemente por Matthieu Kassovitz, do filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain) em sua operação própria para salvar Nadia El-Mansour, a mulher pela qual ele se apaixonou durante sua estadia na Síria pouco depois da guerra civil explodir, foi a maneira que Le Bureau des Légendes encontrou para tornar o perigo mais próximo da sua narrativa – como se já não bastasse a tensão criada entre as inteligências dos diversos países envolvidos no conflito e seus interesses próprios, movidos por políticas externas egoístas.

Foto: Reprodução

Mas foi justamente a partir daí que Le Bureau des Légendes se perdeu, exibindo episódios inconsistentes que claramente tinham um cuidado excessivo para não pisar em falso. Na prisão, Malotru passa por sessões de tortura, é transportado para diversas prisões e vê com seus próprios olhos a violência e atrocidade cometidas pelo Daesh. É lá que ele também conhece um agente russo infiltrado, que acaba negociando a liberdade de Malotru pela sua própria opção de sair daquele lugar, cada vez mais perigoso para permanecer.

É uma pena, no entanto, que Le Bureau des Légendes tenha perdido tanto tempo da 3ª temporada nessa narrativa burocrática que pouco conteúdo adicionou à história. Mas quando uma operação chefiada pelo diretor da DSGE, o agente Duflot (Jean-Pierre Darroussin), dá errado e resulta em sua morte, é aí que Le Bureau des Légendes se volta para as tensões que se passam dentro da agência e retoma novamente a qualidade que tanto lhe rendeu elogios. A morte de Duflot abre espaço para Marie-Jeanne, a primeira mulher a chefiar o mais alto departamento de inteligência da França. E com um outro tipo de liderança: mais dura e menos tolerável. Peço desculpas aos dramas sofridos por Malotru, mas era isso que eu queria mais ver em Le Bureau des Légendes nessa temporada.

Foto: Reprodução

Isso sem falar em outra operação da DGSE envolvendo a agente Marina Loiseau, ainda nova na profissão e que sempre rende bons arcos narrativos desde as primeiras temporadas. E se Le Bureau des Légendes erra no romance frio e forçado entre o agente Raymond e uma combatente curda durante um curto período que Raymond foi à fronteira investigar o paradeiro de Malotru, Le Bureau des Légendes acerta nos episódios finais e se salva quando deixa a emoção tomar conta da narrativa, seja através do amor impossível de se consumar entre Malotru e Nadia El-Mansour, ou pela linda sequência em que o nosso protagonista conversa com a sua filha pela primeira vez após um longo tempo no cárcere.

Já renovada para a 4ª temporada, que deve estrear em 2018, Le Bureau des Légendes ainda se mantém digna de todos os elogios. Mas torço para que a narrativa se equilibre novamente. O mundo está cheio de tensões, infelizmente, que podem ser exploradas e servirem de inspiração pela série. Entretanto, por causa do passo dado no terceiro ano, Le Bureau des Légendes talvez aposte ainda mais em humanizar os seus protagonistas e em mostrar a caçada da DGSE por Malotru, que consegue sua liberdade mas é procurado por ser considerado um desertor. Tudo que Le Bureau des Légendes não pode deixar acontecer é ver a sua narrativa transformada em algo como o 24 horas francês.

Ainda bem que nos episódios finais da temporada Le Bureau des Légendes aponta que este foi apenas um erro de percurso – e a direção certa parece ter sido já retomada.

[Crédito da Imagem de Capa: Reprodução]

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