Martin Scorsese amplifica folclore em torno da histórica turnê de Bob Dylan

Quando anunciado pela Netflix, no final do mês de maio, “Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story” marcava a segunda incursão do diretor Martin Scorsese pela carreira de Dylan após o bem-sucedido “No Direction Home”, lançado em 2005 e com pouco mais de três horas de duração. Este último, um documentário mais tradicional o qual se propõe narrar a trajetória do artista americano. E tudo o que eu sabia sobre esse novo projeto de Scorsese era que se tratava de mostrar a importância da turnê Rolling Thunder na década de 70, quando Bob Dylan resolveu cair na estrada carregando poetas, músicos de todos os estilos e dirigindo um ônibus para tocar em cidades que, originalmente, ele sabia nunca conseguiria ter a chance de se apresentar.

Fui pego de surpresa quando fiquei sabendo que o documentário estava repleto de partes ficcionais, personagens fictícios e histórias totalmente criadas para o filme. Melhor é assistir o próprio Scorsese tentando explicar o que ele estava fazendo com esse filme, ainda em 2018 quando poucos realmente sabiam sobre o projeto. Essa mistura tornou o documentário ainda melhor e mais bonito para mim pois, mesmo não acompanhando a carreira de Dylan e ouvindo apenas algumas músicas do seu vasto repertório, o filme de Scorsese já havia conquistado minha atenção desde o início quando estabelece um conflito entre algumas coisas contados por Dylan que são completamente rechaçadas pelo suposto diretor holandês (interpretado por Martin von Haselberg), que fora contratado por Dylan para filmar a turnê. Mas também o que dizer, por exemplo, da narrativa criada pela atriz Sharon Stone de que ela havia sido convidada por Dylan para se juntar à turnê e cuidar dos figurinos da banda?

Tudo balela, criada propositadamente para confundir a audiência, ou melhor, para fazer o público viajar na loucura que foi essa turnê (essa parte parece ser verdade). Convenhamos: essa foi uma grande jogada de mestre de Martin Scorsese, ou o “pulo do gato” (como estamos acostumados a dizer). Porque foi uma forma do diretor dar um sentido para vários símbolos da turnê, como o fato de Bob Dylan usar maquiagem em suas perfomances, quase que se apresentando como se estivesse encenando. Quando ele canta “Hurricane”, já próximo ao fim, é perceptível o quão Dylan tentava soar como um ator, se utilizando de diversas expressões faciais e dramáticas à medida que entoava versos como “the man the authorities came to blame, for somethin’ that he never done”.

O espírito experimental e até improvisado de “Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story” é convincente e nos pega de surpresa (isso se você assistir com pouca informação, o que a esse ponto não me parece mais ser o caso). O filme de Scorsese capta o espírito da turnê. E quem imaginaria que o diretor poderia nos surpreender dirigindo um documentário musical, não é? Nunca duvide da mente deste brilhante cineasta que, agora no auge dos seus setenta e poucos anos, se arrisca também a trolar o espectador.

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