Eu não imaginei que ao assistir Master of None eu pudesse refletir sobre a estética neorrealista do cinema italiano que marcou o tempo de superação do regime fascista do país mas foi justamente o que fiz, porque foi influenciado por esse movimento que claramente Aziz Ansari construiu o episódio que abre a 2ª temporada de Master of None, “The Thief”, que voltou nesta sexta-feira (12) ao serviço de streaming Netflix após a surpreendente e bem-sucedida 1ª temporada.

Filmado em preto-e-branco pelas lindas paisagens de Modena, na Itaália, Master of None começa justamente de onde a série terminou quando Dev (Aziz Ansari) parte para a Itália após terminar com Rachel com a intenção de estudar as melhores técnicas de preparação de uma boa pasta. Filmado com luz natural, Dev anda de bicicleta por todo o lugar e as cenas nos remetem imediatamente para os filmes de Roberto Rosselini, mas principalmente Vittorio de Sica com o seu Ladrões de Bicicleta (1948), um marco desse movimento e que serve de muita influência nesse episódio de Master of None.

Quando passa a usar as cores a partir do 2º episódio, que marca também a chegada do seu melhor amigo Arnold (Eric Wareheim), os dois viajam juntos para o casamento de uma ex-namorada de Arnold na região da Toscana. É a partir daí que Master of None começa a ser mais provocativa e também mais questionadora, uma vez que Arnold está feliz com o número de encontros que ele tem conseguido ter por meio de um aplicativo de relacionamento ao mesmo tempo que o contrário acontece com Dev, sem qualquer relação pessoal na nova cidade a não ser pela companhia de Francesca (Alessandra Mastronardi), casada e uma das responsáveis pelo restaurante onde Dev estagia colocando em prática suas técnicas de preparação de pasta.

Foto: Divulgação/Netflix

À medida que Master of None avança as questões vão se tornando mais profundas: é bom lembrar que foi Dev quem pediu para se afastar de Rachel. Quando ele começa usar o mesmo aplicativo de Arnold, o episódio “First Date” é uma representação eficiente de como esses encontros são apenas mais uma demonstração das relações frágeis que construímos no dia-a-dia e expõe, além disso, o quão difícil é encontrar alguém que possa gerar uma ligação emocional verdadeira e duradoura – algo que ele tinha com Rachel e ambos não souberam administrar a fase ruim que tiveram.

Master of None corre riscos como uma série inquieta que não quer ser vista como tradicional ou presa em um formato (algo que Girls soube fazer em seu tempo). É engraçada e pessoal ao mesmo tempo, como no episódio “Religion” quando Dev se abre aos seus pais como não praticante do Islamismo e os contrariando quando admite que come carne de porco. Mesmo aos 33 anos, Dev está tentando ser independente do seu jeito enquanto ainda se questiona para onde quer ir, o que quer fazer e onde pretende estar. E se a série nos deixa com água na boca por causa de toda a comida que vemos Dev provando na Itália nos primeiros capítulos, a continuação é mais introspectiva e Aziz Ansari realiza um ótimo trabalho como ator e como roteirista na companhia do seu co-criador Alan Yang.

Assista o trailer:

[Crédito da Imagem de Capa: Divulgação/Netflix]

1 thought on “‘Master of None’ está mais provocativa e ambiciosa na estreia da 2ª temporada

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