Cinema

‘Me Chame pelo seu Nome’ é um conto sensível e íntimo de um primeiro amor

Há uma enorme vontade de explosão de sentimentos em Me Chame pelo seu Nome. Mas todos os personagens se sentem sufocados por não se sentirem livres para expressá-los. Reprimidos, é na intimidade e na solidão que eles colocam para fora o que desesperadamente querem experimentar. É isso que norteia toda a narrativa de Me Chame pelo seu Nome, novo filme dirigido pelo cineasta italiano Luca Guadagnino (Um Mergulho no Passado). A chegada de Oliver (Armie Hammer) para passar o verão na casa do professor Mr. Perlman (Michael Stuhlbarg) e sua esposa Annella (Amira Casar), inicia um verão de descobertas e novas experiências para Elio (Timothée Chalamet), ainda um garoto de 17 anos e que se apaixona por Oliver e começa a deixar se revelar sua sexualidade.

Assim como um outro filme lançado em 2017, Ratos de Praia (dirigido por Eliza Hittman), Me Chame pelo seu Nome, escrito por James Ivory a partir do romance de André Aciman, é um filme rodeado de muita dor e angústia. Em parte porque trata-se de um relacionamento ainda em seu estágio inicial, mas também por ser um romance gay o qual não é aceito pela sociedade. Tanto Elio quanto Frankie (personagem de Ratos de Praia) estão em processo de resolver e entender o que eles são e o que sentem. Em Elio essa dor fica ainda mais clara por causa da sua paixão arrebatadora por Oliver, um amor como aquele contado no filme Meu Primeiro Amor (1991).

A jornada não se revela fácil. Elio e Oliver talvez saibam desde o início que um está sendo atraído pelo outro, mas essa atração sofre resistência. Entre ciúmes e desilusões, Elio tenta se relacionar com Marzia, uma jovem francesa que costumeiramente também passa o verão na mesma região da Itália onde seus pais moram. O mesmo acontece com Oliver. O diretor Luca Guadagnino vai estabelecendo uma tensão sensual entre os dois, quase sempre vistos sem camisa e com os corpos banhados por um sol escaldante que o diretor faz questão de elevar quando sempre os filma em planos contra-plongée. Essa narrativa solar também foi um elemento marcante em Um Mergulho no Passado (2015), filme anterior dirigido por Guadagnino e que transforma a bela paisagem bucólica da Itália em personagem – assim como acontece em Me Chame pelo seu Nome.

Me Chame pelo seu Nome avança furtivamente entre encontros e desencontros, acompanhando esses personagens e o cotidiano deles como se as coisas ali naquele região no norte da Itália andassem imensamente mais devagar do que no restante do mundo. Luca Guadagnino os envolve pela intelectualidade presente na casa em meio a livros, piano e conversas sobre arqueologia greco-romana, e o romantismo de aproveitar as belezas dos rios, das árvores, da culinária e do próprio estilo de vida do lugar. Tudo isso acaba tendo influência no romance entre Elio e Oliver, principalmente quanto ao que cada um vai descobrindo sobre o outro. E quando parece que Me Chame pelo seu Nome já tinha entregado tudo, o filme ainda reserva o grande momento da atuação de Michael Stuhlbarg em sua conversa franca e honesta com o seu filho Elio, transtornado após o fim do verão, a distância de Oliver e a recente descoberta de que este iria se casar.

Os personagens de Me Chame pelo seu Nome estão em uma busca para compreender o que sentem – e nem sempre resta muito tempo para pensar sobre seus atos, bastando apenas agir. Ao final, após todas as belas cenas que acompanhamos, o jogo de sedução e essas descobertas, Me Chame pelo seu Nome nos coloca em estado de reflexão. As vulnerabilidades ficam ainda mais nítidas e, apesar de transmitir uma certa sensação de tristeza em seu desfecho, o filme na realidade encontra um propósito para Elio após ter experimentado uma intensa paixão. O amor tem dessas: nos dá significados quando aparentemente nada poderá dar. Me Chame pelo seu Nome encontra meios de transmitir isso, sendo assim um desses filmes que ficam por muito tempo em nossas mentes.

Assista o trailer:

Me Chame pelo seu Nome (Call Me By Your Name, 2018)
Direção: Luca Guadagnino
Roteiro: James Ivory
Elenco: Armie Hammer, Timothée Chalamet, Michael Stuhlbarg, Amira Casar e Esther Garrel.
Duração: 132 minutos

Jornalista e mestre em Mídias Digitais. Toma conta das redes sociais do Goodfellas.

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