Literatura

Michael Lewis investiga Wall Street e é um dos principais autores do momento

O escritor americano Michael Lewis se transformou em uma celebridade. É algo até incomum para um escritor – ainda mais quando ele poderia estar fazendo fortuna trabalhando ainda no mercado financeiro. Entretanto, Lewis escolheu escrever sobre ele e, desde a crise financeira de 2007, intensificou os seus relatos em múltiplas histórias os bastidores de Wall Street.

Mas quem é Michael Lewis? Quem é esse escritor que parece que todo ano tem um novo filme sendo adaptado de um dos seus livros para o cinema? O mais recente deles é A Grande Aposta (leia aqui a resenha), um filme que esmiuça a crise como nenhum outro. Mas ele é também o escritor de O Homem que Mudou o Jogo, que Brad Pitt é o general manager do Oakland A’s e contrata Jonah Hill para implantar um novo método de contratação e medição do elenco de jogadores baseado em números e em performance, algo que simplesmente revolucionou o beisebol.

Isso sem falar no best-seller Um Sonho Possível, que deu o Oscar de Melhor Atriz para Sandra Bullock. Um livro que, por sinal, aconteceu por acaso porque Lewis estava na verdade pensando em uma história sobre o time de basquete da faculdade em que estudou – que ele acabou escrevendo mais tarde, chamado Coach: Lesson on the game of Life, no qual escreve sobre o seu treinador na época em que era estudante universitário.

Mas a história de fazer esse livro foi que iniciou o seu interesse por Michael Oher, um garoto que deixou para trás o título de “causa-perdida” para se transformar em um dos principais jogadores de defesa da NFL – e um dos mais ricos da liga.

Soa até estranho citar estes livros como o seu best-seller, visto que toda obra que Lewis lança chega rapidamente na lista dos mais vendidos. E isso não acontece por acaso. Lewis traduz para leigos, como nós, o que acontece por debaixo do pano em Wall Street, os acordos que são feitos nos bastidores e como funciona o jogo entre as instituições financeiras, as agências de ratings e os agentes financeiros (gestores, analistas e operadores de bolsa). Não é um jogo justo, é bom que se diga. E Lewis deixa isso muito claro em seus livros.

Em recente participação no programa de Stephen Colbert, The Late Show, Lewis explica porque foi uma péssima ideia ter salvo os bancos durante a crise financeira de 2007 (assista abaixo). Isso é só um sinal do quanto ele se transformou em referência sobre o assunto e da sua importância para discutir as questões que envolvem o mercado financeiro em Wall Street.

Um trabalho de jornalista

A Grande Aposta é um exemplo claro também do trabalho de Lewis como jornalista para descrever o que acontece em Wall Street. No livro, ele narra um grupo de agentes financeiros que descobrem o que vai acontecer com o sistema financeiro americano muito antes de a crise de 2007, aparentemente, pegar Wall Street de surpresa. Lewis mostra que todo mundo poderia saber o que estava acontecendo, bastava olhar para dentro do mercado e para as práticas que as instituições financeiras estavam fazendo sem qualquer regulação ou fiscalização do governo.

O livro, além da história ser bem contada, apresenta também um trabalho de investigação por parte de Lewis, isto é, em reportar tudo aquilo que ele pesquisou e em transformar em uma narrativa solta, leve e fácil de compreender. É isso o que acontece quando Lewis coloca todos esses personagens fascinantes e de fora do “grupinho de Wall Street” no meio de detalhes técnicos que aparentemente são complicados de entender.

Assim, o autor vem transformando o modo como as coisas são vistas, contando as histórias através do olhar de personagens incomuns e que estão fora do círculo principal, pessoas inteligentes que identificam brechas e tiram vantagens das ineficiências. E isso vem sendo relatado por ele desde 2003, quando O Homem que Mudou o Jogo foi lançado e vendeu rapidamente mais de um milhão de cópias.

A sua capacidade de traduzir e dimensionar a crise de 2007 fez dele um observador indispensável sobre a crise. Segundo a revista New York Magazine, em maio de 2010, o livro A Grande Aposta foi citado ao menos quinze vezes durante debates no Senado. Isso apenas dois meses após o livro ser publicado, quando muita gente chamou Lewis para dar conselhos, traçar análises em redes de televisão e escrever artigos para jornais importantes sobre o assunto.

"Boomerangue: Uma Viagem pelo Novo 3º Mundo" foi um dos seus projetos mais desafiadores.
“Boomerangue: Uma Viagem pelo Novo 3º Mundo” foi um dos seus projetos mais desafiadores.

Uma viagem pelo novo 3º mundo

Após o lançamento de A Grande Aposta, em 2010, Michael Lewis partiu para um projeto desafiador, que foi o livro Boomerang: Travels in the New Third World, que é uma coletânea de textos irônicos e hilários que ele escreveu para a revista Vanity Fair sobre a Islândia, a Grécia, Irlanda, a Alemanha, entre outros países europeus e em como a crise chegou até eles.

Viajando pela Islândia, por exemplo, Lewis percebe que muita gente largou a pesca, que é a atividade principal do país, para se arriscar em operações cambiais milionárias. Sobre a Grécia, Lewis descobre que os dados econômicos foram mascarados para que o país pudesse entrar na zona do Euro e, quando chegou na Irlanda, o governo estava ocupado ajudando o povo a contornar uma crise deixada pelo Anglo Irish Bank de mais de 34 bilhões de euros.

O tom cômico não é uma característica própria desse livro, mas que aparece em todos os trabalhos de Michael Lewis. No último livro do autor lançado aqui no Brasil, Flash Boys – Uma revolta em Wall Street, ele usa esse humor ácido para criticar a forma como as ações são negociadas em Wall Street, onde cada vez mais a máquina se impõe sobre o homem e programas de computadores fazem todo o trabalho.

E mais uma vez: um pequeno grupo (a trajetória do canadense Brad Katsuyama) está decidido a enfrentar todo o sistema para expor a verdade ao público sobre como esses programas são feitos para beneficiar algumas pessoas, os investidores de alto escalão, que conseguem usar esses programas como buscadores de melhores preços para as ações que desejam comprar.

"A Grande Aposta" e "Flash Boys" rapidamente alcançaram o topo na lista do NY Times.
“A Grande Aposta” e “Flash Boys” rapidamente alcançaram o topo na lista do NY Times.

Uma máquina de vender livros

Michael Lewis é hoje um dos autores que mais vende livros nos Estados Unidos. Só pra se ter uma ideia, A Grande Aposta vendeu 60 milhões de cópias na semana seguinte ao lançamento. Um mês depois, o livro já tinha conseguido vender 162 milhões de cópias, segundo dados do instituto Nielsen BookScan.

Desde o seu primeiro livro, Liar’s Poker (lançado em 1989), que é uma obra praticamente autobiográfica porque Lewis narra a sua experiência como vendedor de obrigações em Nova York e Londres quando trabalhava para o Solomon Brothers, ele narra a maneira bizarra com a qual foi contratado e o que teve de fazer durante o programa de estágio até finalmente se tornar um trader. É até hoje um dos livros considerados como “obra-prima” sobre o que se passa em Wall Street e que ganhou uma edição comemorativa de 25 anos recentemente (detalhes aqui).

Não demorou muito para que Lewis continuasse fazendo sucesso com os seus livros, mesmo aqueles que não se passam dentro de Wall Street. É o caso de The New New Thing, quando ele parte para o Silicon Valley na busca pela próxima grande revolução tecnológica que sairá de lá e será jogada no mundo. O livro não saiu do primeiro lugar da lista do NY Times por semanas.

Hoje, não importa o que Lewis escreva, será provavelmente o próximo grande best-seller do NY Times e não demorará muito para chegar nos cinemas ou na televisão.

Crédito da Imagem: Reprodução

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