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‘Mindhunter’ é a série criminal que vai te viciar

“Como descobrir para onde nós vamos [a polícia] à medida que os motivos se tornam tão evasivos”? Essa é a frase que, dita durante uma cena do episódio Piloto, não saiu da minha cabeça. Mais do que apropriada para definir uma agência que tentava caminhar com as próprias pernas após a morte do seu histórico diretor J.Edgar Hoover, Mindhunter explora que o mal combatido pelo FBI não se resumia mais a investigar comunistas ou atuar na política externa durante os tempos de crise da guerra fria ou do Vietnã. O mal que crescia eram homícdios hediondos, cometidos das formas mais cruéis e macabras por homens que eram imediatamente tratados com loucos ou doentes mentais, jogados em um manicômio e nada mais.

Mas nada disso estava resolvendo o problema. O FBI, então, tenta ensinar métodos diferentes em sua Academia para serem pelos novos e antigos novos agentes. Um dos professores é  Holden Ford (Jonathan Groff, das séries Boos e Looking, em ótima atuação), que expande o seu campo de visão para investigar a psicologia desses assassinos e o que os levam a cometer crimes tão horríveis, com o objetivo de traçar um perfil que caracterize o modo de agir desses honens. Para seguir a sua teoria e seus estudos, ele conhece o agente Bill Tench (Holt McCallany, de Sully: O Herói do rio Hudson), responsável pela divisão de Ciência Comportamental. Mas nenhum dos dois tinham a exata ideia com o que eles estariam lidando

[ATENÇÃO: SPOILERS A PARTIR DAQUI]

Baseado no livro de memórias escrito pelo agente John Douglas, responsável pelo conceito do termo serial killer quando sequer existia, Mindhunter teve os dois primeiros episódios dirigidos por David Fincher (retornando à TV após aqueles dois episódios de estreia de House of Cards). E como um dos cineastas com contribuções marcantes ao gênero criminal e suspense, Fincher traz o tom sombrio, e às vezes até frio, do seu cinema para dentro da série. E o resultado disso é o quanto Mindhunter estabelece desde a primeira sequência, uma negociação vai sendo conduzida equivocadamente pela polícia até a chegada do detetive Ford, uma tensão que aumenta gradativamente à medida que Ford e Tench se aproximam do que se transforma o real objetivo deles: o estudo das mentes de assassinos como Jack Crawford (O Silêncio dos Inocentes), Charles Manson (tema do possível próximo filme de Quentin Tarantino e responsável pela morte, entre outras pessoas, da esposa do diretor Roman Polanski), entre outros.

Foto: Divulgação/Netflix Brasil

Ambos os detetives atravessam o país buscando assassinos para entrevistarem. E numa das melhores sequências filmadas por David Fincher que, ao som de “Fly Like an Eagle”, da Steve Miller Band, mostra o cotidiano pesado de cafeterias, esperas em aeroportos e horas gastas dentro do carro, o diretor é conciso ao retratar a jornada cansativa de trabalho dos detetives que os levam a encruzilhadas onde poucas respostas são encontradas – mas por vezes suficientes para irem montando o quebra-cabeça. O roteiro escrito por Joe Penhall (A Estrada) ainda faz um paralelo interessante entre a clara revolução que os dois irão provocar na agência e que estamos testemunhando, ao mesmo tempo que não recebem os créditos por isso. Muito pelo contrário: Penhall expõe o quanto o FBI está afogado em sua própria burocracia.

Diferentemente de séries como Law and Order ou Criminal Minds, onde a estrutura procedural transforma em banalidade o que vemos na tela, Mindhunter nos coloca em posição de observadores enquanto despeja imagens chocantes, narra crimes violentos que jamais teríamos a capacidade de inventar (ou criar) e apresenta os assassinos envoltos por uma frieza e posição de poder que, mesmo nos dando conta que se trata de uma obra ficcional, assusta e horropila. É ainda mais aterrorizante se pensarmos o quanto a história, ambientada em 1977, ainda ressoa nos dias de hoje encarnada por massacres como o último que aconteceu em Las Vegas. E a pergunta que abre esse texto sempre acaba dando o seu jeito de voltar: como explicar esses acontecimentos quando os motivos são tão vazios? É o que Mindhunter tenta nos explicar de alguma forma.

Assista o trailer:

[Crédito da Imagem de Capa: Divulgação/Netflix Brasil]

Jornalista e mestre em Mídias Digitais. Toma conta das redes sociais do Goodfellas.

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