‘Mr. Robot’ fica refém da própria excentricidade

Mr. Robot chamou atenção na 1ª temporada por adaptar para a telinha a personalidade e a vida de um hacker com grande verossimilhança. No segundo ano, a série tomou o seu próprio tempo e se aprofundou nos conflitos e demônios de Elliot Alderson (Rami Malek), deixando ainda mais claro a sua natureza de anti-herói. A terceira temporada seria o passo mais importante que a série criada por Sam Esmail daria. E mesmo que tenha tido fagulhas em alguns episódios de que a história estava sendo bem contada, o final de Mr. Robot foi decepcionante.

Por outro lado, também só comprovou a inconstância dessa temporada. Apesar de no primeiro episódio Esmail ter conseguido encaixar suas inquietações (e, por que não, também as nossas) sobre a eleição de Trump e tantos outros assuntos em um momento de pura reflexão de Alderson em meio ao caos que a sua revolução criou, Mr. Robot virou refém das próprias excentricidades; seja dos personagens e suas personalidades excêntricas; seja pela estética da filmagem de Esmail; ou até pela enxurrada de referências que a série coloca e sem atingir qualquer significado.

[ATENÇÃO: SPOILERS A SEGUIR]

A sequência que mais me incomodou e deixou isso claro pra mim foi quando o “faz-tudo” do grupo DarkArmy chega ao esconderijo onde estão Elliot e basicamente sua trupe. Logo começa a tocar uma música em chinês, uma referência que só pode ter saído de Kill Bill. No filme de Quentin Tarantino há um propósito para esse tipo de trilha ser usada, além de ajudar a criar o clima da cena. No caso de Mr. Robot não há qualquer propósito, apenas um desespero mesmo de tornar a cena semelhante a tantas que assistimos em Kill Bill. Isso sem falar nas reviravoltas que Mr. Robot cria. A principal delas é que Angela descobre que Phillip Price é o seu pai. A reação natural seria a moça questionar tudo isso. Mas a sua resposta é começar a falar em vingança, após se dar conta de que foi usada por WhiteRose (a chefona do DarkArmy).

As referências aos filmes de Quentin Tarantino não param por aí, porque nesse episódio final da 3ª temporada basicamente toda a sequência se passa no interior de um galpão abandonado, o que lembra muito Cães de Aluguel. E novamente Sam Esmail perde a chance de estabelecer a tensão que gostaria de criar. É uma pena que isso tenha acontecido porque foi justamente em episódios onde Mr. Robot se manteve fiel à sua linguagem que a série mais se deu bem, basta relembrar a maestria de “eps3_4_runtime-err0r.r00”, o quinto capítulo da temporada, filmado aparentemente em um longo plano-sequência que captura o caos provocado pela revolução de Elliot e do DarkArmy.

Esse episódio é um ótimo exemplo de como Mr. Robot consegue trabalhar bem a sua narrativa entre os dilemas de Elliot, e sua personalidade afetada pelo seu alter-ego, e a sua trama que às vezes parece distópica mas que, na verdade, está mais próxima da realidade do que gostaríamos. Mr. Robot foi renovada para a 4ª temporada (os planos é encerrar a série no quinto ano) e a história prova que ainda tem mais coisa para ser contada – e muito potencial. Só torço para que a série em 2018 seja mais ela mesma do que um misto de referências sem sentido.

[Crédito da Imagem de Capa: Foto: Divulgação/USA Network]

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