Séries

‘Mr. Robot’ retorna refletindo sobre as mudanças e o caos desses tempos

Os Estados Unidos elegeram Donald Trump, que ameaça começar uma guerra nuclear contra a Coreia do Norte; supremacistas brancos mataram uma professora e feriram tantos outros em Charlottesville; truculência da polícia marca referendo em Barcelona sobre separação da Espanha; Reino Unido decide se retirar da zona do Euro; mais de R$ 51 milhões de reais são encontrados em apartamento de ex-ministro no Brasil e movimentos ultra-conservadores de direita estão ganhando certo destaque. Parando pra pensar a conclusão que se chega é de que o mundo como conhecemos está se dissipando, não é? E não sabemos como reagir.

Mr. Robot retornou para a 3ª temporada tentando refletir sobre todo esse caos no qual o mundo entrou. Estamos como Elliot Alderson, tentando compreender a realidade que estamos vivendo (e se questionando se o que estamos vivenciando é mesmo real). Todo esse contexto de tensões no mundo guiaram Mr. Robot para um caminho que seria diferente caso tudo isso não estivesse acontecendo. Mas esse é o mundo que está aí e é dar um jeito de consertar.

[ATENÇÃO: SPOILERS A PARTIR DAQUI]

Foto: Divulgação/USA Network

A terceira temporada de Mr. Robot se inicia imediatamente após os acontecimentos que marcaram aquele final tão controverso do segundo ano. Mas aqui não adianta comentar sobre a trama. Mais importante mesmo é discutir o visual que se conecta diretamente à história. Nada é feito sem um propósito na série criada por Sam Esmail, que dirigiu e escreveu esse episódio. Não é uma coincidência, por exemplo, que a cidade símbolo do capitalismo está sem luz, coberta por uma escuridão que se assemelha aos tempos obscuros que a própria humanidade está construindo.

A habilidade de Sam Esmail nesse episódio de Mr. Robot encontra referências com a linguagem de Stanley Kubrick, àquela do filme Barry Lyndon (1975) quando o diretor não utilizou efeitos de fotografia na filmagem. Fazia sentido para Kubrick porque sua história era ambientada no século XIX. Em Mr. Robot, Esmail usa a luz das velas e efeitos de holofotes daqueles usados em festas para iluminar os espaços, numa clara referência à própria mitologia da série quando a revolução de Elliot foi iniciada com a ideia de “resetar” o mundo – voltar para o “ano zero”.

Foto: Divulgação/USA Network

Por isso que herói ou anti-herói, Elliot é um personagem que continua sendo fascinante. Ainda mais quando ouvimos alguém dizer que devemos ter medo justamente das pessoas mais instáveis. Não é preciso ir muito longe para entender a clara referência ao presidente Trump. Mas Elliot está disposto nesta temporada a consertar a revolução que ele quis liderar. Como bem nota Angela em uma das sequências lúcidas do episódio (tem uma outra passagem com Elliot também), “quando a revolução for desfeita um novo mundo terá renascido”.

É nessa hora que as luzes da cidade voltam a acender. A pergunta que fica é: teremos que esperar quatro anos (ou mais), dentro da realidade que vivemos, para sair dessa escuridão e enxergar um novo mundo? Isso só o tempo poderá dizer. Por enquanto melhor viver na ilusão com Mr. Robot de que o mundo poderá ser consertado nessa temporada. É uma esperança que devemos trazer para a nossa própria realidade.

[Crédito da Imagem de Capa: Divulgação/USA Network]

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