Ambientado nos anos 40, é chover no molhado dizer que a trama narrada em Lágrimas Sobre o Rio Mississipi ressoa até hoje. A trágica e violenta história de negros que têm suas vidas arruinadas por causa do racismo está repleta de exemplos na história americana (e mundial), inclusive ganhando novos capítulos como a recente tensão criada pela supremacia branca na cidade de Charlottesville há alguns meses. Lágrimas Sobre o Rio Mississipi não fica alheio e nos faz refletir essa questão da humanidade que parece longe de ser superada.

Escrito por Virgil Williams e Dee Rees a partir do romance da escritora Hillary Jordan, Lágrimas Sobre o Rio Mississipi conta a história de duas famílias, os McAllans e os Jacksons. Os McAllans são uma família branca que viviam muito bem até resolverem comprar a fazenda para a qual os Jacksons, uma família negra, trabalhavam enquanto esperavam a oportunidade de ter a própria terra. Até que o conflito da Segunda Guerra Mundial atinge as duas famílias quando Jamie McAllan (Garred Hedlund) e Ronsel Jackson (Jason Mitchell) são convocados pelo exército.

A diretora Dee Rees estabelece de imediato a tensão entre as duas famílias no início do filme, anunciando que algo trágico aconteceu (com uma morte envolvida) – ainda que não tenhamos nenhuma ideia do que possa ter sido. Apesar da burocracia em conseguir lidar com essa trama sendo contada sob o ponto de vista de seis personagens diferentes, Lágrimas Sobre o Rio Mississipi passa pelo primeiro ato com dificuldade e se mostra efetivo justamente na segunda metade do filme, quando Jamie e Ronsel retornam ao Mississipi, agora como veteranos de guerra e com todas as marcas deixadas por ela.

O impacto que sentem com a estrutura social do lugar é rápido, seja quando Ronsel chega e vê o ônibus separado entre brancos e pessoas de cor ou quando é obrigado a sair pela porta dos fundos porque a da frente é só para pessoas brancas.

Assistir ao filme, então, se transforma em um exercício de tentar imaginar o evento trágico que marcou essas duas famílias, mas Dee Rees transforma essa experiência em poesia visual em cada quadro que filma, colocando em nossos ombros (ou em nossa imaginação) o mesmo peso que o patriarca da família Jackson, Hap (Rob Morgan) e a matriarca, Florence (Mary J. Blige), carregam para sustentar, educar e transmitir bons valores aos seus filhos.

Como já fomos avisados sobre a narrativa que nos levará a um evento trágico, Lágrimas Sobre o Rio Mississipi nos prepara para refletir sobre o que acontece quando a ordem social é quebrada. Em Detroit em Rebelião o resultado se deu em manifestações. No caso de Lágrimas Sobre o Rio Mississipi, a amizade inesperada entre Ronsel e Jamie e incompreendida por aqueles que querem manter a ordem intacta, é o que determina toda a tensão racial a qual estabelecia que brancos e negros não podiam se misturar, enfurecendo os velhos do lugar que se comportam como coronéis, principalmente Pappy McAllan (Jonathan Banks), patriarca da família e que vive na fazenda

O desfecho de Lágrimas Sobre o Rio Mississipi no terceiro ato é perturbador, mas a jornada é compensada pelas lindas imagens que Dee Rees e a diretora de fotografia Rachel Morrison compõem no filme, além das atuações de todo o elenco (com destaque para Garret Hedlund). Lágrimas Sobre o Rio Mississipi é um filme que demora para sair do nosso imaginário, talvez por assistirmos tanto ódio e violência em proporções tão perturbadoras quanto a que vemos no filme.

Assista o trailer:

Lágrimas sobre o Rio Mississipi (Mudbound, 2017)
Direção: Dee Rees
Roteiro: Dee Rees e Virgil Williams
Elenco: Garret Hedlund, Carey Mulligan, Jason Clarke, Rob Morgan, Jonathan Banks, Jason Mitchell e Mary J. Blige.
Duração: 134 minutos

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