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Na metade da temporada, 'Mr. Robot' continua corajosa e realista

Mr. Robot chegou nessa semana ao sexto episódio e na metade da 2ª temporada, que terá dois capítulos a mais confirmados desde quando a série foi renovada. Não gosto de comentar um seriado enquanto ele não terminou a temporada, mas é preciso abrir uma exceção para Mr. Robot – e o fato da série ter chegado na metade desse segundo ano é uma boa desculpa.

O que mais chamou atenção nesses seis episódios foi a coragem da equipe chefiada por Sam Esmail (criador da série, roteirista e diretor dos episódios). Depois do final do primeiro ano, claramente ele seguiu um caminho mais difícil para continuar a sua narrativa, mas que tem se mostrado necessário. Mr. Robot se aprofundou na mente de Elliot Anderson e criou um estudo de personagem cujo retrato não cansa de surpreender.

[SPOILERS A PARTIR DAQUI]

A primeira delas foi desenvolvida logo no início, quando Elliot aparece tentando seguir uma rotina que lhe faça se afastar do seu alter-ego e também longe dos computadores. A ideia era justamente ajustar a vida, parar com as drogas e caminhar sem ser notado pelo FBI, que tem uma força-tarefa totalmente voltada para investigar e capturar os hackers responsáveis pela ruptura e quebra de todo o sistema financeiro da E-Corp.

Lógico, as coisas saem completamente do controle e Elliot se envolve em uma briga complexa consigo mesmo. Parte da campanha promocional da 2ª temporada foi justamente dizer que “controle é uma mera ilusão”. E a série prova isso a cada episódio, uma vez que desmistifica a todo tempo aquilo que está sendo contado tornando os eventos da série muito mais significativos do que aparentemente são – e também iludindo o público, já que Mr. Robot vive desconstruindo os fatos da sua narrativa.

A disputa de xadrez em um dos episódios, já quando Elliot conhece Ray (o seu outro vilão da temporada mas que ele ainda não o enxergava como tal) é um dos momentos mais emblemáticos porque oferece a anomalia que Elliot não queria enxergar quando está em contato com o seu alter-ego. Não existem duas pessoas: mas sim um único ser que está em constante confusão consigo mesmo. Conviver com isso se mostra uma tarefa muito mais difícil e complicada do que invadir o sistema de segurança do FBI, por exemplo.

Elliot Anderson vive em uma constante briga consigo mesmo | Foto: Divulgação/USA Network
Elliot Anderson vive em uma constante briga consigo mesmo | Foto: Divulgação/USA Network

Um retrato realista

Usar a palavra “realista” para comentar seriados ou filmes normalmente não é o termo mais adequado. No entanto, vale mais uma exceção para debatermos Mr. Robot porque outro acerto da série é mostrar que todos os códigos que vemos na tela existem de verdade. Não é como se os roteiristas estivessem criando algo “do nada”. Muito pelo contrário: o que vemos já foi usado em algum momento para invadir algum sistema. Isso é algo que a todo tempo faz a série ser elogiada.

Mr. Robot usa esse retrato realista como uma base para expandir a sua história que não se resume apenas a falar sobre hackers. É impossível tratar do assunto sem deixar de lado questões políticas e diplomáticas entre países (Estados Unidos e China estão no centro), ciber segurança (e vulnerabilidades apresentadas pelos sistemas), assim como a relação das pessoas (e da sociedade) com toda essa tecnologia que hoje temos à nossa disposição.

Em um episódio dessa segunda temporada, Elliot volta a um terminal pela primeira vez desde a invasão à E-Corp para ajudar a sua irmã Darlene e cria um malware que poderá ajudá-la a interromper a investigação que o FBI está conduzindo. A vulnerabilidade do sistema é narrada por Elliott que nos mostra o quanto é fácil criar o ataque controlando roteadores da rede TOR (usada para navegar na chamada deep web) e dispará-lo sem ninguém perceber.

Sequências como essa até fizeram Edward Snowden elogiar a série.

Mr. Robot ganhou elogios até de Edward Snowden por seu realismo. | Foto: Divulgação/USA Network
Mr. Robot ganhou elogios até de Edward Snowden por seu realismo. | Foto: Divulgação/USA Network

A internet profunda

Citada nos parágrafos anteriores, a deep web (ou “internet profunda”, em tradução livre) é algo que vem tentando ser combatida por muitos governos ao redor do mundo. No documentário Deep Web (2015, disponível na Netflix) temos uma noção de todas as transações ilegais que são feitas neste submundo da Internet, inclusive no compartilhamento de pornografia infantil, tráfico de drogas, venda de armas e até de serviços de matadores profissionais.

A zona nesse estágio da Internet é uma loucura e mexeu com a cabeça de Elliot (apesar dele não ter sido surpreendido) ao saber dos negócios ilegais conduzidos por Ray nessa rede. Mr. Robot entra em um tema sensível ao questionar a existência desse sistema e seus usuários que atuam como receptores e disseminadores.

O episódio 6 discute em parte isso, mas usa o que Elliot viu na deep web  para se aprofundar ainda mais em seu estudo de personagem. As memórias de Elliot quando criança e o abraço em seu alter-ego, que na verdade ele sente como se estivesse abraçando o seu pai, mostram que ele está disposto a conviver socialmente sem ter o controle da sua mente – e sabe que precisará fazer isso por pura sobrevivência.

Esse capítulo, aliás, é mais um exemplo do quanto a série é corajosa e disposta a correr riscos. Com um visual total dos anos 90 e que lembrava uma sitcom por retratar uma situação familiar em único cenário e reproduzindo gargalhadas ao fundo, o episódio deve ter mexido com a cabeça de muita gente que, provavelmente assim como eu, deve ter se questionado se estava assistindo a série certa ou se o capítulo está mesmo correto. E é bom responder: sim, está tudo certo.

Sam Esmail vai meticulosamente costurando uma temporada corajosa, daquelas inesquecíveis do nível de Breaking Bad, Mad Men ou Better Call Saul. Assistir cada episódio de Mr. Robot hoje é passar por uma experiência que se estende por muito mais tempo em nossas mentes.

[Crédito da Imagem: Divulgação/USA Network]

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