Séries

Não é irônico, mas as séries musicais mais desafinaram do que acharam ritmo

Parecia que 2016 seria o ano das séries musicais. Com tantas promessas e gente boa trabalhando por trás dessas produções, a certeza de sucesso era praticamente certeira. Mas o que parecia certo acabou se transformando em uma grande decepção porque nenhuma delas conseguiu atingir o nível esperado. E estou falando aqui de Vinyl, Roadies e The Get Down, a trinca de séries musicais que deveria fincar o gênero de uma vez por todas na TV.

Julgando pelo que Vinyl fez e por aquilo que Roadies e The Get Down estão fazendo, as três séries falharam o desafio. Elas deram a entender que deve ser realmente muito complicado fazer o retrato musical de uma determinada era. Isso porque há muita coisa a ser discutida. E o maior problema de Vinyl, Roadies e The Get Down, é a confusão de tramas que acontecem ao mesmo tempo e que pouco acrescentam à narrativa, deixando-a basicamente sem ritmo e por vezes desafinada. E isso, meus amigos, é o caos para uma série musical de respeito.

A série da HBO Vinyl tinha tudo para conquistar um grande público: produção de Martin Scorsese e Mick Jagger, retrato do rock e do movimento de contracultura na Nova York dos anos 70 e um elenco talentoso liderado por Bobby Cannavale e Olivia Wilde. Porém, logo no primeiro episódio (dirigido por Scorsese) Vinyl cometeu o seu maior erro e atraiu um fantasma que a assombrou até o fatídico fim da série: ser violenta ao mesmo tempo que fala de música, e relacionar a máfia enquanto trata da indústria fonográfica.

Ora, não tinha como aquela trama dar certo. O showrunner da série (aquele que é o “cérebro” e o responsável pelas escolhas tomadas) Terrence Winter não soube entregar um desfecho para aquilo que ele tinha apresentado no episódio “Piloto”. E no decorrer da série, apesar das boas faixas musicais e versões de músicas consagradas de artistas como David Bowie, Led Zeppelin e New York Dolls, Vinyl perdeu um bom tempo na profunda imersão de Ricki Finestra em seu vício por cocaína, ou mesmo nas festas pra lá de estranhas embaladas por Nico e Lou Reed, e dadas por Andy Warhol, a maior figura do movimento de pop-art e que em Vinyl ganhou contornos de alguém totalmente frágil e desinteressante.

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Foto: Divulgação/Showtime

O lado oposto

Mas se sobrou intensidade e energia em Vinyl, a maior parte delas canalizada em decisões ruins e que não colocaram o show nos trilhos, o oposto acontece em Roadies, série musical da Showtime que estreou há uns dois meses, criada por Cameron Crowe (Quase Famosos, Jerry Maguire, Vanilla Sky, entre outros) e produzida por J.J Abrams. Crowe é um fã de música, algo que ele deixou claro na maior parte dos filmes que dirigiu – principalmente em Quase Famosos. Ex-repórter da revista Rolling Stone, ele viajava cobrindo shows de rock e usou essa experiência para construir a trama de Roadies.

A série peca pela falta de ritmo e por ter uma construção tão fria daquilo que acontece na série. Luke Wilson (Bill) e Carla Gugino (Shelli) são os dois principais e responsáveis pela direção da turnê da Staton-House Band que, apesar de perfis nas redes sociais (Twitter, Facebook e Instagram) e um site oficial, é apenas uma banda ficcional criada para a série e que ajudou a direção de marketing do canal a desenvolver campanhas para divulgação de Roadies. A ideia foi boa, por sinal.

Mas aí sabe aquela esperança que sempre temos quando vemos o nome de Cameron Crowe à frente de algum projeto, de que terá algum impacto na cultura pop ou personagens carismáticos e que captam a sua generosidade? Bom, Roadies não tem nada disso, apesar de Cameron Crowe ter dirigido cinco episódios e estar mesmo à frente do que acontece na série. Roadies tem uma trama leve que persegue esse grupo em turnê pelos EUA, montando e desarmando palcos, testando instrumentos e controlando a banda para que os seus membros, instáveis como não poderiam deixar de ser (isso é rock n’ roll), não tenham recaídas e se percam.

Roadies entrega bons momentos (como essa cena do vídeo abaixo), mas deixa a desejar porque trata cada personagem tomado por estereótipos. Ao menos, Roadies não comete tanto os mesmos erros de Vinyl porque tenta se afastar dos excessos que estragaram a série da HBO.

Por outro lado, o rock na série parece estar morto (um exemplo é quando em um episódio cogita-se a ideia do show de abertura ser feito por Jack White, mas acaba sendo de um comediante que faz stand-up para a plateia até a banda entrar), com os negócios sendo conduzidos por um produtor que se acha cool porque ouve Mumford and Sons, um marqueteiro britânico que chega com o intuito de salvar a turnê da crise mas que é mais infantil que todo o resto, e outros personagens cools que andam de skate pelo backstage, especialistas em cafés, etc.

Uma coisa única e boa Roadies consegue fazer: captar o espírito de união e família entre os membros da equipe. Isso rendeu até elogios por parte de roadies reais em uma matéria do The Guardian.

A confusão de The Get Down

The Get Down estreou há uma semana, quando a Netflix liberou os primeiros seis episódios da 1ª temporada. E, assim como Vinyl e Roadies, foi lançada rodeada por alguma expectativa. E isso não foi gerada apenas pela presença de Baz Luhrmann (Moulin Rouge, O Grande Gatsby), apesar do marketing ter se concentrado nele mas sejamos sinceros: há quantos anos o cineasta australiano não faz um bom filme? Desde Moulin Rouge, certo?

Tudo aquilo que criticamos em seus últimos filmes, como Austrália e O Grande Gatsby, que pecavam pelos excessos de efeitos que tentavam dar um tom moderninho à trama, Luhrmann repetiu na direção do episódio “Piloto” que teve quase uma hora e meia de duração. Começo a achar que o problema dessas séries musicais está na duração do primeiro episódio, todos tiveram mais de uma hora para deixarem uma boa impressão e tudo que conseguiram foram causar uma grande confusão.

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Foto: Divulgação/Netflix

Se eu tivesse que eleger uma palavra para traduzir o que é The Get Down, eu diria confusão. A série é sobre o nascimento do hip-hop no fim dos anos 70 no Bronx, em Nova York. Mas existe uma falta de direção em contar a história. O primeiro episódio é tão longo e chato, que precisei de uma semana para voltar a assistir a série. Esse intervalo foi bom até para escrever esse texto e refletir sobre The Get Down.

Já tentei ver o segundo episódio mais de uma vez e não consegui sair do lugar porque, mesmo que Luhrmann não seja responsável como diretor nos próximos capítulos, a sua extravagância continua lá, a ideia de que todas as cenas precisam ser grandiosas. E esse conceito sufoca a história dos personagens, e a própria trama principal, que é o que mais me interessa ao menos. Se tenho esperanças de que a série melhore e encontre o seu caminho? Claro, sempre tenho.

[Crédito da Imagem: Divulgação/HBO]

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