Séries

'Narcos' mantém tom e entrega uma temporada ainda melhor que a primeira

A segunda temporada de Narcos foi disponibilizada na última sexta-feira pelo serviço de streaming Netflix. São dez episódios cujo ponto de partida é exatamente em seguida à invasão do exército colombiano à La Catedral e a consequente fuga de Pablo Escobar (Wagner Moura). A partir do seu retorno à Medellín, Narcos dá um tempo nos negócios para se aprofundar nesse personagem, que está perdendo totalmente o controle sobre a extensa organização que criou e, principalmente, está vendo a sua família se dissipar bem à frente dos seus olhos.

Falar dessa maneira até parece dar uma certa pena de Escobar, aquela mesma provocada por Breaking Bad quando torcer por um final desfecho para o anti-herói Walter White (e, mais do que nunca, para sua família), fazer todo sentido. Mas não há como. Assim como a própria população colombiana, inclusive seguidores de Pablo Escobar, não conseguiram apoiá-lo até o fim por causa das atrocidades que cometeu, dos ataques terroristas e dos muitos inocentes que morreram nessa guerra.

O ator Wagner Moura disse em recente entrevista à revista Time que na Colômbia atual as pessoas sentem desprezo pelas histórias contadas em Narcos. Claro, mexe em um ponto muito sensível de uma história que não está tão distante assim. Como o próprio Moura diz, “nos últimos 25 anos os colombianos conseguiram transformar completamente o país, o que é impressionante pela forma com a qual eles reconstruíram eles mesmos”. O ponto de virada para isso acontecer foi quando Pablo Escobar, já no limite do seu desespero, explode um carro com uma enorme quantidade de bomba no centro de Bogotá. Ali ficou claro que não haveria mais espaço para Escobar na Colômbia.

A segunda temporada de Narcos persegue muito esse clima de insatisfação, medo e luta. Se na primeira temporada o tema principal era mostrar como Escobar conseguiu construir um império “do nada”, Narcos se concentra neste segundo ano em um personagem que está acuado, pulando de esconderijo para esconderijo, tentando sobreviver e proteger a sua família ao mesmo tempo em que perde poder e vê suas alianças serem desfeitas.

Foto: Divulgação/Netflix
Foto: Divulgação/Netflix

Mas enquanto o cartel de Medellín perdia força, o cartel de Calí se aproveitava da situação para ganhar terreno. Antes transportando drogas apenas para Nova York, os narcotraficantes rivais de Pablo Escobar começaram a entrar em Miami, assumindo todos os negócios deixados por Escobar uma vez que ele já não tinha mais poder ou condições para mantê-los intactos como antes. Isso dá uma brecha para Narcos continuar a história mesmo com a morte de Escobar ao final da segunda temporada, um “spoiler” já cantado pela Netflix, e por Wagner Moura, desde que a campanha de divulgação dessa temporada começou.

Política, acima de tudo

Apesar de contar a trajetória de Escobar (quinze anos da sua vida na 1ª temporada e mais 11 meses na segunda), Narcos tem um discurso político sutil e muito bem preparado pelos showrunners José Padilha (Tropa de Elite) e Eric Newman. Não só pela entrevista que ambos deram recentemente à Variety contando que “Narcos só acabará quando o tráfico de drogas também acabar”, mas pelo discurso de alguns diálogos que não passam despercebido.

Narcos deixa claro que a melhor forma de liquidar o tráfico de drogas na América Latina e em outras regiões do mundo é por meio da sua legalização. Em uma determinada passagem da série o advogado de Escobar, Fernando Duque (Bruno Bichir), diz ao seu cliente que o procurador-geral, que defende o julgamento democrático de Escobar como direito de qualquer cidadão colombiano, é a favor da legalização das drogas. Algo que imediatamente causa um espanto nos dois na sala.

No entanto, Narcos não encontra sutileza para culpar os Estados Unidos pelo tráfico de drogas. Segundo Padilha, “os Estados Unidos erraram ao lidar com o problema achando que se tratava apenas de fornecimento”. A presença de Bill Stecher (Eric Lange), o agente que a CIA enviou para a Colômbia, mostra o jogo político e perigoso que os Estados Unidos estavam fazendo ao apoiar o outro lado dessa guerra porque achava que era mais interessante derrubar Escobar a qualquer custo. E, bom, a gente sabe que o custo disso é muito grande até hoje.

Foto: Divulgação/Netflix
Foto: Divulgação/Netflix

Nesse caos e fogo cruzado de políticas e acordos obscuros, os dois agentes Steve Murphy (Boyd Holbrook) e Javier Peña (Pedro Pascal) tentam fazer o necessário. Mas eles próprios também não conseguem ficar à margem do que é feito e jogado para debaixo do tapete. Na linha ténue de um jogo como esse, faz parte tentar jogar sujo da mesma forma que o seu adversário está jogando. Afinal de contas, no final, não fez diferença o que foi feito se o objetivo final foi atingido.

A segunda temporada de Narcos mantém o tom da primeira: preenche alguns eventos de forma documental, passa uma mensagem do que pensa e se aprofunda em um personagem cujo fascínio encontra resposta naquela frase vista no primeiro episódio da série sobre o significado de realismo mágico. Uma citação que novamente é lembrada em uma passagem dessa segunda temporada pela narração do agente Murphy quando este cita a literatura de Gabriel García Márquez, uma informação que nos é dada com uma advertência “olha, eu sei que tudo isso é de impressionar. É real, tudo aconteceu”.

Então, é bom nos prepararmos para mais um pouco desse realismo porque a história de Narcos está longe de acabar. E temos motivos para torcer por essa continuação.

[Crédito da Imagem: Divulgação/Netflix]