'Narcos: México' continua pertinente na 2ª temporada

Na segunda temporada de Narcos: Mexico, que estreou na semana passada na Netflix Brasil, Miguel Ángel Felix Gallardo (Diego Luna), o chefe do cartel de Guadalajara e da federação que se forma no México sob o seu comando, anda de um lado para outro costurando acordos, sempre trajando terno igual a um homem de negócios com cabelos bem penteados e o inseparável cigarro. Seu desespero para salvar a si mesmo é sentido quando o império que ele criou, onde ninguém achou que era possível, parece desmoronar. A sua vontade de manter essa pose de negócios, apesar de toda a violência e morte, só se compara aos próprios políticos que enxergam uma oportunidade de tornar o México um país influente em meio ao caos.

Sob esta perspectiva a produção engaja quem assiste a continuar assistindo porque a história consegue fisgar o espectador desde o princípio. A série não se deixa levar pelo fascínio que algumas produções tendem a ter quando se trata de narcotráfico. Fica claro que a temporada não é apenas sobre isso, mas sim sobre um contexto político que possibilita a existência de algo tão bem organizado no qual os chefões andam livremente, se misturam com a elite, enquanto tudo é tratado com naturalidade.

Ao mesmo tempo, a temporada soa às vezes problemática na sua linha do tempo em tentar relacionar os acontecimentos no México com o que acontecia na Colômbia – que naqueles anos 80 representava um papel mais importante no tráfico de drogas para os Estados Unidos. As múltiplas tramas que acontecem quase que simultaneamente contribuem em tornar a narrativa movimentada, mas também prejudicam porque em determinado momento as coisas começam a acontecer muito rapidamente. Assim, algumas pontas ficam soltas pelo caminho, algo que acontecia com menos frequência nas temporadas anteriores, muito por conta dos arquivos documentais ou da narração em off que davam suporte. Esses mecanismos continuam atuando na segunda temporada de Narcos: Mexico, mas usados de forma mais limitada e sem a mesma sabedoria.

Parte desse problema é esquecido quando a narrativa segue para a segunda metade da temporada, que mostra que o sistema político mexicano não estava pronto para deixar a corrupção para trás. Essa apatia representou graves consequências, sentidas no aumento da violência, no desequilíbrio que causou com cada cartel tentando ser mais forte e, principalmente, na falta de confiança de um povo em sua classe política.

Enquanto isso, apesar da ofensiva americana com a Operação Leyenda, lançada após a morte do agente Kiki Camarena (Michael Peña), os próprios americanos lavaram as mãos e não se esforçaram para limitar a presença de drogas ou o crescimento dos cartéis. Nesse sentido, a nova temporada de Narcos: Mexico é um acerto contundente em colocar o dedo na ferida e mostrar que esse não é um problema de alguma produção de época. Narcos: México é uma série de TV sobre um problema real do nosso tempo.

Vinícius Silva
Sou formado em Jornalismo e mestre em Gerenciamento de Negócios Internacionais. O vício em Filmes, Séries e nas Artes em geral me levaram à escrita.

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