No sofá

Eram cinco da tarde e a moça da limpeza já tinha ido embora. A casa cheirava a lavanda, mesmo com o vento que entrava pela janela e porta da varanda abertas. Ela não tinha visto a moça da limpeza sair porque estava no telefone desde às quatro sentada no sofá da sala enquanto conversava com a melhor amiga, que dessa vez se queixava da sogra que vivia pegando no seu pé. Todo dia era uma lamentação nova que ela ouvia com paciência, muitas vezes sem prestar atenção nos detalhes. Esses momentos de cumplicidade lhe traziam segurança, como se os problemas alheios confirmassem que sua vida estava indo bem – pior era a dos outros.

Mas assim que desligou o telefone se arrependeu de ter inventado uma birra com a própria sogra, dizendo que ela tinha tomado partido do filho em alguma bobagem que lhe alterou os nervos. “Veja, só! Fez isso só para me provocar!” Não sabia de onde tinha vindo aquele sentimento que criou a mentirinha, mas sabia que era real. Se arrependeu porque no momento não havia birra nenhuma e por isso devia ter evitado inventar coisas, para não perder esse cartucho mais lá na frente quando houvesse algo de verdade para desabafar. No momento, seu casamento e sua relação com a sogra estavam perfeitamente equilibrados.

Se o marido imaginasse que ela conversava assim abertamente sobre seus sentimentos e intuições, não ficaria satisfeito. Ele era muito fechado, mal contava o que se passava no trabalho, era como se entrasse pela porta da casa e deixasse todos os problemas do lado de fora, evitando tocar em algum assunto que lhe causasse ansiedade. Já ela não conseguia separar as coisas, seus problemas de trabalho eram problemas que influenciavam sua vida pessoal. Quantas vezes perdia o sono por causa de uma discussão ou medida que teria que tomar que não agradaria os subordinados? Queria estar bem com todos sempre.

Quanto às amizades, ela não podia viver sem. Sempre se sentiu melhor cercada de pessoas e até fingia para poder se encaixar em novos e antigos círculos. Queria pertencer. Que nada, uma mentirinha besta sobre a sogra não causaria nenhum mal, se tranquilizou. Daqui a pouco tinha que se arrumar para um jantar na casa da antipática Magali. O que ia vestir? O grupo de amigos estaria presente, mesmo quando os anfitriões só eram vistos de caju em caju, porque “não conseguiam ir a todos os encontros”. Era a comemoração do aniversário de André, o marido.

Pensou que essa era uma ótima oportunidade para ela inaugurar a saia longa de oncinha que comprou para o inverno, mas não sabia se usaria com um body branco que tinha herdado da sua mãe. Será que ainda dava nela? Estava com preguiça de subir para provar a roupa, queria ficar ali no sofá sem fazer nada o máximo de tempo até que o marido chegasse. Mas queria também ir bem arrumada para o jantar, para mostrar a todos que estava bem, obrigada. De repente lembrou de Magali novamente e ficou estressada: Ai, que mulher sem graça! Ela não bebe, não é divertida, adora fazer a conversa do grupo girar em torno de si, como se quisesse compensar o tempo que não passa com a gente para desabafar, o que acaba tornando as reuniões mais pesadas. Da última vez, resolveu encher a cara de vinho e ficou falando alto sobre como se sentia deslocada na própria família. Que mulher irritante! Pelo menos servia comidas deliciosas e hoje seria massas e molhos.

Melhor, então, não usar branco. Ela tinha alguma blusa preta? Preto ficaria perfeito com a oncinha. Abriu o Instagram para buscar outras ideias de roupa mas todas as mulheres que seguia eram magras e não tinha referências para o seu corpo. Desistiu. Que ódio ter que escolher uma roupa quando nada me cai bem, queria ficar em casa. Ainda vou ter que aguentar aquela nojenta falando sobre como preparou a comida, como ela faz tudo gostoso, como ela se sente culpada de não ter ido ao último encontro… como se a gente não soubesse que ela é uma antissocial. Ai que irritação!

O relógio da sala tocou marcando seis da tarde e despertando-a de seus pensamentos, quando se deu conta que o marido chegaria em vinte minutos. Melhor se apressar para tomar uma ducha antes e ganhar mais tempo para fazer a maquiagem. Levantou do sofá, guardou o celular no bolso e seguiu para o quarto.

Larissa Seixas
Jornalista e especialista em Mídias Digitais, trabalha com Publicidade e escreve nas horas vagas. É viciada em notícias, Twitter e Instagram, filmes e livros de romance.

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