Nova produção nacional da HBO, Pico da Neblina é um grande acerto

Assistir hoje o Brasil passando uma lei de legalização da maconha é algo inimaginável. Manobras recentes de extremismo de opiniões, polarização política e ascensão de movimentos políticos conservadores tornaram essa ideia uma utopia. Entretanto, é justamente esse cenário que a série brasileira Pico da Neblina – produção da HBO Latin America que estreou no dia 4 de agosto em parceria com a O2 Produções do cineasta Fernando Meirelles – tenta imaginar tomando como base o seguinte questionamento: “o que aconteceria com o Brasil se a maconha fosse legalizada?”.

A trama apresenta uma teia de personagens que viverão nesse Brasil cuja legalização foi institucionalizada. Biriba (Luís Navarro) é um jovem da periferia de São Paulo que vende maconha para os mais diversos públicos e classes que vivem na cidade, expondo o quanto a desigualdade é latente na maior capital do país (fotografia que se repete no resto do território nacional). Biriba vive na tênue linha entre vender o produto de maneira legal, e para isso ele contaria com a ajuda do inexperiente Vini (Daniel Furlan), que está tentando tornar-se empreendedor e vive rasgando dinheiro imaginando aplicativos que não funcionam, ou continuar no negócio ilegal ao lado do seu amigo Salim (Henrique Santana), que subiu na hierarquia do tráfico ao se transformar em chefe da boca onde eles vivem e vê um potencial de crescimento para outras drogas em meio à legalização da maconha – como a cocaína, por exemplo.

Escrita por Chico Mattoso, Cauê Laratta, Mariana Trench e Marcelo Starobinas, Pico da Neblina entra em um debate polêmico, principalmente no contexto do momento político atual no Brasil. Quando pensava-se que a pauta da legalização estava avançando, uma vez que pesquisas mostravam um recuo no número de brasileiros adultos favoráveis à proibição da maconha, há pouco mais de dois meses o presidente do Superior Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, adiou o julgamento de uma ação que poderia alterar artigos da Lei de Drogas e sequer definiu uma nova data para o debate retornar à pauta. As decisões de Toffoli ocorreram após encontros com o Poder Executivo, entre eles o presidente.

O episódio Piloto da série traz, querendo ou não, esses contextos como pano de fundo e navega por acontecimentos logo em seguida à decisão da legalização. E nesse momento Pico da Neblina expõe as contradições e conflitos que vemos acontecendo repetidamente no país, dos traficantes que assistimos torcendo pelo voto de um delegado contra a liberação, passando pela classe média e alta paulistana comemorando com fogos de artifícios dos prédios mais luxuosos que compõem o cenário de arranha-céus da cidade, para chegar na concentração de manifestantes festejando no cartão-postal mais conhecido de São Paulo, o Masp, em uma sequência na qual a série projeta com eficiência o quadro de quem ganha e quem perde com a decisão – um guia o qual funciona como uma crítica sutil à irresponsabilidade que a falta de debate pode trazer como consequência.

O outro lado

Voltando à realidade e deixando a distopia de lado, o historiador Dudu Ribeiro também diz que, “do ponto de vista da aplicação da legislação de drogas, que é desproporcional em relação à população negra sobre a branca, no dia seguinte ao julgamento, se for um dia representativo de mudança no STF, não muda absolutamente nada”. E é isso que acontece em Pico da Neblina. A maconha foi legalizada, mas as outras drogas precisam continuar circulando porque tem demanda. Biriba não tem muita chance de decidir o que vai fazer em seguida. Precisando colocar dinheiro em casa para a família sobreviver, ele aceita um trabalho arriscado para ser aceito como a segunda cabeça da boca onde Salim vai administrar.

Pico da Neblina é a aposta da HBO Brasil.

E logo em sua primeira missão, Biriba se envolve com um policial rodoviário corrupto e responsável por abastecer o tráfico ao realizar apreensões de drogas nas rodovias e vendê-las para os traficantes colocarem nas ruas de novo. As coisas saem errado e Biriba basicamente sela o seu destino, porque ele vislumbra uma saída para montar um negócio de venda legal de maconha mas com um dinheiro que saiu justamente da ilegalidade que ele tanto quer se afastar para dar condições mais humanas à sua família.

Existe uma discussão no meio acadêmico sobre a elitização desse debate estar acontecendo apenas para dar mais conforto à classe média e alta no seu próprio uso da maconha ao invés de abrir portas para conversas mais amplas sobre a não-criminalização para o uso terapêutico, comparações reais a partir de experiências comprovadas em outros países de que a regulamentação não aumenta o consumo e assim por diante. Pico da Neblina, que demorou sete anos para ser realizada, está corajosamente se colocando no meio desse furacão. Já no primeiro episódio, a série consegue estabelecer uma linguagem própria, com destaque para a montagem, que torna cada sequência tensa com as visões estranhas de sua protagonista e um futuro cada vez mais imprevisível que deixa ele e nós, espectadores, com medo.

Novo mercado

A temática de Pico da Neblina com certeza não agrada o presidente, trazendo um tema que “perturba os alicerces da família tradicional brasileira” e não esconde seu desejo de acabar com a Ancine e interromper os incentivos da agência à produção de filmes brasileiros – ou, em uma declaração que só vejo como censura, definir o fim do patrocínio estatal a determinadas obras, de acordo com o tema. No caso de Pico da Neblina, a série foi produzida e realizada com os esforços próprios e em conjunto entre HBO Latin America e a produtora O2.

Guerra de streaming vai movimentar o mercado.

Dessa forma, serviços de streaming estão abrindo um novo mercado para as produções nacionais, sejam séries ou filmes. A Netflix já desenvolve conteúdos originais no Brasil como as séries 3%, O Mecanismo, Coisa Mais Linda e anunciou que pretende dobrar sua produção de filmes, séries e documentários brasileiros com o objetivo de chegar, até 2021, a 30 produções originais feitas no país, dentre elas a já anunciada Sergio, cinebiografia do diplomata brasileiro da ONU Sérgio Vieira de Mello que é produzida e estrelada pelo ator Wagner Moura.

Em relação às séries, o catálogo deve adicionar cinco novos programas originais em parcerias com estúdios como a O2 (Irmandade) e Kondzilla (Sintonia, que já está disponível desde o dia 9 de agosto), além de outros artistas criativos que estão desenvolvendo projetos exclusivos para a plataforma.

Como o mercado é muito competitivo, outros serviços também estão apostando no Brasil e se aproveitando dessa fala do presidente de interromper os repasses da Ancine. A Amazon Prime, por exemplo, já disse que irá apostar em produtoras, técnicos e atores nacionais em suas produções. A própria HBO, que está exibindo Pico da Neblina, anunciou recentemente 15 novas produções nacionais, entre elas uma série que investigará o funk carioca e um documentário sobre os 40 anos de Refavela, disco clássico e icônico de Gilberto Gil.

São percepções que vão além da possível extinção da Ancine: os serviços de streaming perceberam há algum tempo que precisam apostar em produções originais do país onde têm operações para manterem os assinantes ativos com histórias próximas da realidade, que os envolvam e diminuam a rotatividade. O público sai ganhando também pela competição acirrada em um mercado que em poucos meses terá a entrada de novos participantes como a Disney+, Apple TV+ e HBO Max.

Vinícius Silva
Sou formado em Jornalismo e mestre em Gerenciamento de Negócios Internacionais. O vício em Filmes, Séries e nas Artes em geral me levaram à escrita.

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