Exibido na Mostra Competitiva de Cannes no ano passado, Paterson é um filme simples e que se encaixa no cinema do seu realizador, Jim Jarmusch. Sensível, poético e contemplativo, a rotina de Paterson (interpretado por Adam Driver, em ótima atuação) segue o mesmo ritmo pacato da cidade de Paterson, New Jersey, onde o filme é ambientado e terra do herói de guerra Paterson (cujo nome é visível em cada esquina e muro da cidade) e também dos poetas William Carlos Williams e Allen Ginsberg.

Poesia é o que não falta no filme, seja através das imagens ou de versos que aparecem na tela escritos por Paterson que, entre a pausa pro almoço ou enquanto espera de manhã cedo o horário para sair com o seu ônibus, escreve aqui e ali alguns versos que parecem ter saídos de uma mente muito mais nova do que a idade que ele aparenta ter, rascunhando em um caderno velho o que ele vê na paisagem urbana e bucólica da cidade enquanto os dias vão se repetindo de domingo a domingo tendo pouca (ou nenhuma) variação.

Todos os dias são iguais: Paterson acorda cedo, dá um beijo em sua esposa Laura (Golshifteh Farahani), se arruma e vai para o trabalho onde ele é um motorista de ônibus. No final do seu turno, ele retorna para casa, janta com Laura e tira o resto da noite para passear com o cachorro Marvin (Nellin, os dois têm uma relação de desconfiança, diga-se), o deixa preso fora do bar onde Paterson entra para tomar uma cerveja servida por Doc (Barry Shabaka Henley) e depois volta pra casa. A rotina se repete no resto dos dias, menos nos fins de semana, quando Laura e Paterson vão ao cinema ou sua esposa se ausenta para levar sua recente receita de brownies à feira da cidade.

A rotina não é nunca vista como algo negativo ou sequer serve de conflito para seus personagens pensarem em mudar alguma coisa. Eles estão acostumados com aquilo, estão bem e realizados consigo mesmos. Mesmo quando Jarmusch provoca alguns questionamentos sobre o porquê da caixa do correio da casa de Paterson e Laura ficar sempre torta, se algo vai acontecer com Marvin quando ele está sozinho do lado de fora do bar, se os passageiros estarão em perigo quando o ônibus que Paterson dirige quebra ou quando um grupo suspeito questiona a raça de Marvin nas ruas de Paterson. Tudo no final se resume mesmo a uma provocação de Jarmusch porque nada que coloque esses persoangens em perigo vai acontecer. O filme está interessado apenas em narrar as vidas normais que estas pessoas levam.

E acompanhamos esse cotidiano até com determinante interesse porque Paterson e os habitantes da cidade são pessoas comuns que muito se assemelham a nós mesmos e às nossas próprias rotinas que precisamos enfrentar dia após dia. Às vezes reclamamos, mas na maioria apenas aceitamos porque não há muito o que fazer a não ser acordar de manhã cedo, ir trabalhar, ter o intervalo do almoço, jantar com a esposa e quem sabe tomar uma cerveja no bar depois de passear com o cachorro.

Assista o trailer:

Paterson (idem, 2016)
Direção: Jim Jarmusch
Roteiro: Jim Jarmusch
Elenco: Adam Driver, Golshifteh Farahani, Nellie, Barry Shabaka Henley, Rizwan Manji, Trevor Parham e Chasten Harmon.
Duração: 115 minutos

[Crédito da Imagem de Capa: Divulgação/Amazon Studios]

2 thoughts on “Novo filme de Jim Jarmusch, ‘Paterson’ é uma delicada meditação sobre a vida cotidiana

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