“Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre” tem história sutil e arrebatadora

Foi em Ratos de Praia (2017), apenas seu segundo longa-metragem, que a diretora Eliza Hittman captou a atenção da mídia. O retrato era, também como agora, uma crítica à sociedade que marginaliza e sufoca minorias, daquela vez os homossexuais, os obrigando a quase que viverem clandestinamente. Agora, em Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre, filme mais comentado de 2020 após vencer os prêmios do júri dos festivais de Sundance e Berlim, Hittman narra a jornada de uma adolescente para interromper uma gravidez indesejada.

A inspiração para realizar o filme, como a própria diretora conta, surgiu em 2012 quando ela leu no jornal a história de Savita Halappanavar, de 31 anos, que morreu na Irlanda após os serviços de saúde negarem um aborto que salvaria a sua vida. Posteriormente, seu caso serviu como exemplo para o país derrubar uma das leis mais restritivas de aborto no mundo. Antes dessa lei, o que muitas mulheres irlandesas faziam era cruzar o mar irlandês e irem até uma clínica de aborto em Londres para realizarem o procedimento.

No filme, Eliza Hittman traz a versão dessa história e jornada europeia para os Estados Unidos. Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre apresenta Autumn (Sidnei Flanigan), adolescente de 17 anos e moradora em uma área rural da Pensilvânia. Em sua primeira aparição na tela ela canta “He’s Got The Power”, do grupo feminino da década de 60 The Exciters. Sua performance, ao contrário dos seus outros colegas de sala que estavam participando de uma espécie de concurso cultural estudantil, é carregada de dor, angústia e raiva. Sentimentos que mais tarde descobrimos serem gatilhos de uma gravidez indesejada que ela descobre realizando o teste na pequena cidade onde vive.

A jornada para realizar um aborto

É claro desde o início para Autumn que a sua única saída é abortar. A encruzilhada, no entanto, é que ela não pode realizar esse processo no estado onde vive, pois as leis obrigam que os pais (ou responsáveis legais) sejam consultados e participem do procedimento. A única saída é viajar 3h de ônibus até Nova York e encontrar uma clínica. Com a ajuda da sua prima e amiga Skylar (Talia Ryder) elas partem nessa jornada. A partir daí o filme se transforma em um estudo íntimo de personagem sobre duas garotas adolescentes que precisam enfrentar uma sociedade tóxica e machista, a mesma que vê atos de agressão e assédio como assuntos do cotidiano.

Eliza Hittman mostra isso através de situações corriqueiras, seja quando um colega de escola faz gestos obscenos, ou o gerente do supermercado beija as mãos das funcionárias ao final do expediente, ou um pervertido que mostra o seu pênis à protagonista no trem do metrô. A sutileza como ela trata do assédio no filme torna tudo ainda mais relevante pois, Eliza Hittman nunca deixa essas intervenções distraírem o público da mensagem principal do filme: o assédio psicológico que as mulheres enfrentam para interromperem uma gravidez indesejada.

É lá pela metade do longa-metragem que a sequência mais dolorosa, e que dá título ao filme, nos esmaga e atinge em cheio, quando Autumn senta-se em uma mesa de exames e precisa responder ‘Nunca’, ‘Raramente’, ‘Às vezes’ ou ‘Sempre’ para perguntas sobre o parceiro sexual. A expressão juvenil e assustada de Autumn cede, se partindo bem diante dos nossos olhos e nos fazendo partir também.

Cinema americano com veia europeia

A crueza de cenas como essa é o que destaca a inteligência emocional de Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre. Mas também o silêncio. São poucos diálogos, e a própria Autumn ou mesmo Skylar, não trocam grandes emoções e preferem os celulares enquanto esperam o tempo passar. Hittman nos poupa com isso daquele momento de explicação dos fatos ou da lição de moral. Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre tem uma abordagem mais objetiva, naturalista e documental que lembra o cinema de cineastas europeus como a francesa Claire Denis, os irmãos belgas Luc e Jean-Pierre Dardenne (O Filho, A Criança) e, principalmente, o romeno Cristian Mungiu (4 Meses, 3 Semanas, 2 Dias, Graduação).

Assim como o trabalho desses diretores na maior parte de suas filmografias, Hittman busca no silêncio o realismo e os sentimentos puros que as suas protagonistas estão sentindo. É a tentativa de se aproximar o máximo que conseguir da realidade de uma experiência como essa que tantas mulheres ao redor do mundo enfrentam.

Chegar ao fim de Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre é constatar mais uma vez o quão triste e revoltante é viver em uma sociedade doentia, que cria barreiras e coloca as mulheres sob constante ameaça. Por isso essa é uma obra tão importante, para qualquer tempo.

Vinícius Silva
Sou formado em Jornalismo e mestre em Gerenciamento de Negócios Internacionais. O vício em Filmes, Séries e nas Artes em geral me levaram à escrita.

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