‘O Dia do Atentado’ recria ataques em Boston mas sem a relevância que gostaria

Durante doze anos os Estados Unidos traçaram uma guerra contra o terrorismo e viveram sob a constante ideia de segurança até serem novamente atacados, não com a mesma proporção daquele ataque às Torres Gêmeas, mas causando novamente a mesma sensação de insegurança e impotência de antes. O alvo foi a Maratona de Boston, em 2013, quando os irmãos Tsarnaev explodiram duas bombas caseiras no meio do público que acompanhava na linha de chegada.

É isso que o filme O Dia do Atentado, que estreia nessa semana nos cinemas brasileiros com um longo atraso, recria. Ocorrido nos tempos modernos das redes sociais, a hashtag #BostonStrong cresceu rapidamente na época, mudando inclusive a nossa própria rotina já que acompanhamos o desenrolar da história praticamente em tempo-real. A participação da população local, que ajudou dando dicas e contribuindo com a investigação após os atentados, se transformou em um estudo de caso que é sempre lembrando quando outros ataques terroristas ocorrem em outras cidades pelo mundo.

O Dia do Atentado é um filme muito pessoal e nota-se esse tom durante todo o tempo. Nascido e criado em Boston, Mark Wahlberg vive o sargento Tommy Saunders (um personagem, bom que se diga, criado apenas para o filme), um dos primeiros socorristas presente na linha de chegada onde aconteceu uma das explosões. Ele é importante também pelo profundo conhecimento da cidade, das ruas e de seus moradores, auxiliando os trabalhos do FBI durante as primeiras horas de investigação quando a equipe chefiada por Richard DesLauriers (Kevin Bacon) começa a pesquisar os suspeitos através das câmeras de segurança. E aqui os primeiros questionamentos sobre a veracidade já começam a surgir.

Um questionamento que poderia ir se perdendo pelo caminho já que O Dia do Atentado tenta assumir um tom quase documental, usando muito do que foi gravado e filmado por celulares na época. Isso transforma essa terceira contribuição entre Mark.Wahlberg e Peter Berg, diretor do filme, em um projeto mais ambicioso se comparado à O Grande Herói (2013) e Horizonte Profundo: Desastre no Golfo (2016). Isso ajuda a direção visceral de Peter Berg, uma característica sua tanto na TV (Friday Night Lights e The Letftovers) quanto no próprio cinema (O Reino e o já citado O Grande Herói). Nas cenas de ação ele se sai muito bem, mas quando parte para o lado humano comete um erro aqui e ali, como na cena em que enquadra as pernas do casal Jessica (Rachel Brosnahan) e Patrick (O’Shea) quando os dois estão na cama trocando carinhos para momentos seguintes se transformarem em vítimas na maratona e perderem as pernas durante o atentado.

Foto: Divulgação/CBS Films

É o tipo de artifício, pista e recompensa, que serve muito em outras situações. Mas não em um filme como esse, que mexe com algumas memórias ainda muito recentes (é bom salientar que os atentados foram em 2013, há apenas quatro anos). Por outro lado, apesar de transformar a ação policial em uma superprodução hollywoodiana, Peter Berg consegue dar urgência ao roteiro e em particular duas sequências ele mostra um pouco do seu virtuosismo para sequências de ação: a primeira quando recria os atentados ao fim da maratona, estabelecendo uma filmagem que retrata o campo de guerra que a cidade se transformou e o desespero; e a segunda quando os irmãos Tsarnaev são interceptados num momento de ápice da tensão estabelecida anteriormente.

Claro que o filme não poderia deixar de valorizar o amor pela América e o patriotismo de todos. Assistir um filme como O Dia do Atentado é esperar por isso. Mas o que incomoda mesmo é transformar o atentado nessa superprodução que, mesmo importante, não é essencial ou fundamental para investigar os fatos e conhecer melhor essa cidade após o que aconteceu. Isso sem falar em alguns diálogos que claramente estão ali apenas com o intuito de suavizar (desnecessariamente) o roteiro, como na cena em que o sargento Jeffrey Pugliese (J.K Simmons) diz “preciso parar de fumar” pisando no corpo de um dos irmãos que acabara de ser morto em conflito com a polícia.

Não foi preciso viver na cidade durante essa época, seja como morador ou turista, para perceber que esse é o tipo de piada que não se encaixa em um filme que tenta homenagear de forma verdadeira essas pessoas. Fora isso, O Dia do Atentado tem sim boas intenções. É uma pena, no entanto, que o filme esteja mais para um longa-metragem de ação do que para um estudo relevante sobre aquelas horas de agonia e tensão. Assista o trailer:

O Dia do Atentado (Patriots Day, 2016)
Direção: Peter Berg
Roteiro: Peter Berg, Matt Cook e Joshua Zetumer
Elenco: Mark Wahlberg, John Goodman, J.K Simmons, Michelle Monaghan, Kevin Bacon, Melissa Benoist e Rachel Brosnahan.
Duração: 133 minutos

[Crédito da Imagem de Capa: Divulgação/CBS Films]

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