Cinema

‘O Formidável’ atinge o objetivo de humanizar uma figura como Jean-Luc Godard

O filme francês O Formidável, que traz de volta o diretor Michel Hazanavicious (vencedor do Oscar por O Artista), traz um recorte interessante na trajetória do diretor Jean-Luc Godard (no filme muito bem interpretado por Louis Garrel) no momento em que ele termina seu longa-metragem mais político, A Chinesa (1967), e se apaixona durante as filmagens pela atriz Anne Wiazemsky (interpretada em O Formidável por Stacy Martin), então com 17 anos na época e o diretor acabara de fazer 36.

O Formidável, por sinal, começa com Godard refletindo sobre a sua idade e o que dizia Mozart, de que os artistas e intelectuais deveriam morrer aos 35 anos porque não mereciam envelhecer. Talvez por ficarem mais e mais rabugentos e insuportáveis consigo mesmos. Porque é isso que acontece com Godard e que o filme não esconde. Chegamos ao final da narrativa não querendo mais ouvir a voz de Louis Garrel e sua verborragia sem fim como se entendesse sobre tudo e pudesse ditar o que todo mundo fazia.

A questão que fica ao final é a seguinte: será que Godard gostava de ser visto como essa pessoa chata ou tudo não passava de uma tática sua para chamar atenção? Ao fim das filmagens de A Chinesa e o casamento repentino com Anne, Godard parte para as ruas para defender o comunismo e o maoísmo. Reflexo da própria época que vivia, A Chinesa é um retrato de um filme inacabado justamente como os próprios movimentos, que ainda estavam começando um ano antes do famoso maio de 68, enquanto que O Formidável tenta dar sequência ao que aconteceu após aquele momento turbulento.

Foto: Divulgação/Wild Bunch

Mas uma coisa fica claro sobre o que viria a seguir na carreira de Godard quando o A Chinesa chega ao final, quando uma das personagens diz que “tudo que é ficção deixa mais próximo da realidade”. Essa é a visão que Godard dá sobre o cinema e a arte que tanto respeita. É a partir daí que O Formidável acompanha esse momento da carreira de Godard e seu foco em realizar um cinema político, experimental e sem qualquer relação com a estética que a própria Nouvelle Vague pregava – ou mesmo com o cinema americano de então. Com a narrativa ambientada um ano antes do famoso maio de 68, Godard está decidido sobre esse rompimento com o próprio cinema e acreditava que todos deveriam fazer a mesma coisa para lutar contra a indústria burguesa e opressora.

Essa sua visão da luta da classe operária contra a burguesia o levou a ter brigas com François Truffaut e Bernardo Bertolucci, por exemplo, porque ele queria que todos os cineastas o seguissem em fazer filmes políticos e não mais comédias, romances ou dramas. Para ele, o cinema não precisava mais disso – ainda que o público que o encontrava nas ruas pedisse por mais filmes desse tipo sabendo que precisavam ir para o cinema com o objetivo de esquecerem também um pouco da realidade que tanto já os faziam sofrer.

Foto: Divulgação/Wild Bunch

No meio disso tudo estava Anne, que passa de um estado de puro amor e admiração pelo diretor para um desprezo. Tanto que quando ela parte para filmar na Itália sem a companhia de Godard, conseguimos sentir o alívio em sua expressão de poder se sentir um pouco livre de tanta tensão. Ao tratar dessa figura tão importante para a história do cinema, o trabalho de Hazanavicious pouco aparece na tela. Mesmo porque, ele se apropria da própria estrutura visual e dinâmica narrativa de A Chinesa (inclusive no uso das cores primárias), numa decisão que incomoda mas não compromete. Por outro lado, ele acerta em adotar um tom até cômico em certas passagens que ajudam a desconstruir o próprio Godard, numa tentativa de humanizá-lo.

Porque todo ser humano é coberto de erros e já se sabia das histórias de Godard ser uma pessoa difícil e controversa. O Formidável só deixou isso mais claro. Por isso prefiro admirar as obras de Godard (filmes como Acossado, Demônio das Onze Horas, Uma Mulher é Uma Mulher e Banda à Parte são obras-primas, filmadas em menos de dez anos de carreira e que estão na história do cinema) do que a sua figura humana, impossível de compreender em certos momentos que, enquanto espectador, tive a vontade de calar a sua boca para não ter que continuar ouvindo tanta verborragia.

Assista o trailer:

O Formidável (Le Redoubtable, 2017)
Direção:
Michel Hazanavicious
Roteiro: Michel Hazanavicious
Elenco: Louis Garrel, Stacy Martin, Bérénice Bejo e Jean-Pierre Mocky
Duração: 102 minutos

[Crédito da Imagem de Capa: Divulgação/Wild Bunch]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *