O Irlandês: Scorsese faz filme definitivo sobre tema que marcou sua carreira

Parece inevitável, à medida que a idade avança e o fim parece próximo, parar para analisar a jornada vivida e fazer uma auto análise de tudo aquilo que foi ou não realizado. O Irlandês, novo filme do maior diretor americano vivo, Martin Scorsese, chega à Netflix neste fim de semana após duas semanas de exibição nos cinemas brasileiros. O filme começa suas três horas e meia de história apresentando Frank Sheeran (De Niro), o personagem principal, mal de saúde e preso a uma cadeira de rodas em um asilo de idosos. Ali, ele começa a narrar como a sua vida se transformou desde que era um motorista de caminhão que se aproximou de Russell Bufalino (Joe Pesci), um alto escalão da máfia italiana nos Estados Unidos, e de Jimmy Hoffa (Pacino), folclórico e poderoso líder sindicalista.

Com um custo elevado para os padrões de filmes dirigidos por Scorsese, por conta do processo de rejuvenescimento do trio de atores principais, a narrativa de O Irlandês percorre duas décadas na vida dos três personagens. O diretor vem falando em entrevistas sobre o processo de realização do filme, como De Niro o convenceu e depois como ele próprio precisou convencer Joe Pesci a largar a aposentadoria (que já durava dez anos) e se comprometer com um novo projeto. “Mais um filme de máfia?”, indagava Pesci, enquanto que Martin respondia “não, vai ser diferente, vamos ler o roteiro”. E é mesmo diferente. A máfia não é retratada de maneira romântica como em Os Bons Companheiros, ou muito menos glamourizada como em Cassino.

Ao cobrir vinte anos da máfia e de história da política americana, O Irlandês tem um tom reflexivo. Scorsese não se interessa em mostrar a violência como em outras vezes exibiu. Ele constrói uma das sequências mais bem costuradas do filme, quando a câmera se move acompanhando dois matadores em uma barbearia e em vez de mostrar o assassinato, o plano sequência leva o espectador a se fixar nas flores, enquanto ouvimos tiros, gritos e correria. O Irlandês está mais interessado em refletir sobre a vida, as decisões que cada um toma e como isso impacta nos relacionamentos familiares e de amizade, sendo totalmente oposto aos filmes sobre máfia que o diretor realizou anteriormente.

Estes são os sentimentos, aliás, que permeiam praticamente a última hora do filme. Enquanto testemunhamos a história sendo contada por alguém de dentro, O Irlandês causa uma mistura de reações. Apesar das brutalidades cometidas por Frank, o filme humaniza o personagem e permite ao espectador desenvolver um sentimento de compaixão, ainda que ele seja cruel e terrível.

Por outro lado, a presença e o silêncio de Peggy (Paquin), filha de Frank, traz um elemento que enriquece a trama do filme ao colocá-la como o centro moral da narrativa de O Irlandês, sendo alguém que observa com nojo os jogos políticos, as mortes suspeitas e as sujeiras jogadas por debaixo do pano. Ela compreende tudo isso e observa passivamente durante boa parte da vida. A decisão de não se comunicar ou ver mais o pai é o que determina o destino final de Frank, sendo a culpa e o arrependimento aquilo que ele provavelmente levará deste mundo. Como em todos os filmes de Scorsese, a presença da religião é novamente muito forte, sendo uma maneira de encontrar paz e equilíbrio para uma trajetória tão conturbada e permeada por mentiras.

A narrativa de O Irlandês está repleta de ambiguidades e absurdos, como a suspeita sobre a morte de John Kennedy, por exemplo, mas não é sobre isso que o filme deseja narrar. Não faltam teorias da conspiração na narrativa contada por Frank. Entretanto, o que preenche mesmo a tela são as atuações de De Niro, Pesci e Pacino, além do cuidado e a sensibilidade de Scorsese que realiza o seu filme definitivo sobre um tema que marcou tanto a sua carreira.

Vinícius Silva
Sou formado em Jornalismo e mestre em Gerenciamento de Negócios Internacionais. O vício em Filmes, Séries e nas Artes em geral me levaram à escrita.

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