'O Lar das Crianças Peculiares' é um trabalho sólido do diretor Tim Burton

Tim Burton é um diretor que construiu o seu estilo desde os primeiros filmes que dirigiu, deixando claro o seu apreço por uma estética mais sombria (A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça), de personagens incomuns (Edward – Mãos de Tesoura) e registros de uma busca pelo aperfeiçoamento e na crença de poder contar uma boa história da forma como deseja, tendo liberdade criativa para fazer isso (Ed Wood).

Porém, há alguns anos os filmes de Tim Burton deixaram de ser interessantes como esses títulos citados acima (caso do esquecível Sombras da Noite ou mesmo a animação Frankenweenie). Nesse período dos anos 2000 pra cá, talvez o que tenha mais saltado os olhos foi Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, um filme no qual ele não busca deixar com que a estética do seu cinema se sobressaia à história. E quando o mesmo acontece em O Lar das Crianças Peculiares, o resultado é também bastante satisfatório.

Baseado no romance de estreia do autor Ransom Riggs publicado em 2011, e adaptado para o cinema pela roteirista Jane Goldman (Kingsman: Serviço Secreto), o livro de O Lar das Crianças Peculiares ficou por muito tempo na lista dos mais vendidos do jornal NY Times vendendo mais de 3,1 milhões de exemplares. As sequências Hollow City (2014) e Library of Souls (2015) completam a trilogia recém-lançada.

Conduzido por seu avô Abe (Terence Stamp), Jake (Asa Butterfield) é levado a conhecer uma aventura que tem todos os elementos de uma fantasia contada por uma mente que é diagnosticada com demência talvez justamente por contar essas histórias. Mas é por causa delas que Jake conhece o lar das crianças peculiares e a Srta. Peregrine (Eva Green), responsável pela segurança delas e das suas habilidades incomuns.

Foto: Divulgação
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O diretor Tim Burton faz um filme até mais “certinho” para os seus padrões mas sem perder a identidade que tanto o caracteriza (a sequência da batalha dos esqueletos com os etéreos é uma das boas cenas do filme). Exibindo um bom uso da tecnologia 3D, como naquela cena em que um esqueleto é posicionado no canto direito do quadro, trazendo um efeito correto de suspense e horror vividos pelos personagens, tendo a contribuição da linda trilha sonora composta pela dupla Michael Higham e Matthew Margeson, O Lar das Crianças Peculiares equilibra fantasia e mistério e cria bem o efeito de pista e recompensa com o seu espectador.

O título também se favorece por ser um filme dinâmico nos dois primeiros atos quando passa a maior parte do tempo explicando o universo da história que está sendo contada (termos, teorias e explicações sobre viagens no tempo, como aquelas crianças foram parar ali e o porquê de estarem ali). Tim Burton acerta nas decisões e preenche a trama com argumentos que fazem sentido e nos ajudam a conectar os pontos à medida que a história avança.

Foto: Divulgação
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Entretanto, no último ato de O Lar das Crianças Peculiares, Tim Burton e Jane Goldman se apressam para encerrar a trama e surge alguns atropelos para fazê-la andar mais depressa. Assim, a presença da talentosíssima Judi Dench é completamente jogado fora ao aparecer em apenas duas sequências cujo impacto é praticamente nada. Se Judi Dench não foi bem aproveitada, ao menos Burton e Goldman souberam usar o lado irônico e sarcástico de Samuel L. Jackson (tão presentes em Django Livre e Os Oito Odiados e emprestados ao vilão Barrow), servindo até para quebrar um pouco da tensão que o filme cria.

Eva Green também está ótima como a Srta. Peregrine, dando vida a uma mulher que não mede esforços em proteger essas crianças e sabe como demonstrar isso na maneira como convive com elas. Pena que a falta de conflito da personagem (a solução seria se aprofundar na história envolvendo Victor, uma criança que mora no lar mas cuja história não fica totalmente clara) não a deixe com muito espaço para desenvolvê-la. E mesmo quando O Lar das Crianças Peculiares se perde um pouco no romance entre Jake e Emma (principalmente no final), o filme ainda assim consegue criar um bom desfecho com ao menos a tentativa de continuar a história nos próximos filmes.

É bom ver Tim Burton dirigindo um filme com uma história como O Lar das Crianças Peculiares. Às vezes fico com a impressão de que ele próprio deve ter encontrado em suas aventuras um lar como aquele, onde ele pudesse ser ele mesmo sem se preocupar com o julgamento dos outros. No final, talvez tenhamos todos imaginado um lugar assim.

[Crédito da Imagem: Divulgação]

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