Séries

O legado de House of Cards


A série House of Cards chega ao fim na sexta-feira (2), quando todos os episódios da sexta e última temporada estiverão disponíveis no serviço de streaming da Netflix. Após passar por um quase cancelamento, quando as alegações de assédio sexual contra Kevin Spacey vieram à tona, House of Cards terá um final digno em respeito aos fãs e aos que trabalharam na série, não deixando que o escândalo no qual Spacey se envolveu apague aquilo que a série construiu – ainda que, em parte, isso se deva justamente ao seu personagem Frank Underwood. House of Cards foi a série responsável por inaugurar um novo modelo, servindo como um experimento para validar as estratégias de conteúdo e distribuição da própria Netflix.

Eu me lembro perfeitamente do ano de 2013. Eu estava morando em Dublin, na Irlanda, quando fiquei sabendo assim de surpresa que uma série dirigida por David Fincher e com Kevin Spacey e Robin Wright tinha estreado. Ainda não conhecia a Netflix e não me lembro se eu já tinha ouvido falar do serviço de streaming (acredito que não). Tentei buscá-la para assistir e estava muito difícil encontrar formas de ver, até que resolvi assinar o serviço e usar o período gratuito como forma de assistir. Ao me deparar com House of Cards, mais uma surpresa: todos os episódios estavam disponíveis. Não precisava ficar esperando o intervalo de uma semana para o próximo episódio. O modelo revolucionou a forma de consumir série – e mudou a indústria.

Esse é o principal e mais importante legado que House of Cards deixará. O modelo de distribuição de conteúdo da Netflix ao liberar todos os episódios da temporada de uma só vez para os fãs maratonarem e conversarem entre si nas redes sociais se tornou a sua marca registrada, e pela qual ganhou o reconhecimento que tem hoje. A Netflix não tinha produzido até House of Cards nenhum conteúdo original (ou nada de relevância). A bem-sucedida experiência com a série pavimentou o caminho para as outras, inclusive para o sucesso seguinte que foi o lançamento de Orange is the new Black (também com a última temporada já anunciada). Com esses dois programas, tendo atores conhecidos por trás, diretores e produtores com histórias na TV, além de boas histórias e ousadia, a Netflix passou a competir de igual com a HBO, então soberana.

E já que falei em ousadia antes, esse é um outro elemento que House of Cards contribuiu bastante nos últimos anos desde as campanhas de marketing e lançamento que envolveram de quadros expostos no importante museu Smithsonian a compras de páginas que se transformaram em manchetes nos mais importantes jornais do mundo, House of Cards sempre deu a impressão de que estava um passo a frente das outras séries. E se a gente for falar sobre a trama política, então, aí vamos dizer que mesmo House of Cards se transformou em realista até demais.

Mas a ousadia de House of Cards também se viu, principalmente, na forma de contar a história. Logo no primeiro episódio, quando a quarta parede (aquela que separa a audiência dos personagens) foi quebrada, a série já dava sinais claros de que não se tratava de um produto meramente passageiro. House of Cards marcaria história dali em diante, chegando finalmente na sexta e última temporada talvez não do jeito que todos pretendiam, mas sabendo perfeitamente como encerrar esse ciclo.


Robin Wright no comando

No final da quinta temporada, Carrie Undewood (Robin Wright) quebra a quarta parede e diz para a audiência: “minha vez”. E não poderia ter havido gancho melhor para a sexta temporada após o afastamento de Kevin Spacey, o qual resulta na morte de Frank Underwood como a própria Netflix já antecipou em suas campanhas promocionais, e dando ainda mais espaço para Carrie liderar. Segundo os showrunners de House of Cards, isso de alguma forma estava planejando: a ideia era deixar Claire seguir carreira política, enquanto Frank mudar para o setor privado. Se tudo acontecesse como o planejado, era a forma como a sexta temporada possivelmente se desenvolveria.

Mas com tudo o que aconteceu envolvendo Spacey, coube à sua parceira de cena Robin Wright tomar as rédeas da série e ser o rosto que a Netflix (e os produtores) precisavam para transmitir credibilidade e continuar. E foi ela mesma a principal responsável por House of Cards não ser cancelada. Sua influência para isso acontecer foi tão grande que ela não se tornou apenas a protagonista, mas também a principal pessoa que emprestou a sua visão à última temporada por trás das câmeras ao dirigir boa parte da última temporada – incluindo os episódios finais.

Isso foi importante porque, e esse é mais um elemento que House of Cards ajudou a popularizar como modelo de negócio, a série não é um produto da Netflix. Na realidade, House of Cards pertence à produtora MRC. E desde a primeira temporada, é a Netflix quem compra os direitos de exibição e distribuição exclusiva. Para esta sexta temporada, o serviço de streaming desembolsou US$ 50 milhões só com a aquisição dos seis episódios, isso sem falar nos custos de publicidade. Os altos custos de House of Cards, nas duas primeiras temporadas, foram outros fatores importantes que contribuíram em elevar cada vez mais os custos médios das produções televisivas – basta comparar com o orçamento de Westworld, por exemplo.

House of Cards chega ao fim no momento certo. E a decisão da Netflix e MRC em continuar e dar um final digno à série foi importante ao passar a mensagem certa, alta e clara de não deixar o que aconteceu com Kevin Spacey definir o desfecho de House of Cards. Agora é simplesmente aproveitar os últimos episódios. Não será uma despedida melancólica. Pelo contrário: será o perfeito momento de se despedir de uma série que já entrou para a história dessa era da televisão que vivemos.

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