‘Olhos que Condenam’ joga luz na corrupção e injustiça do judiciário

Em 1989 um caso emblemático marcou os Estados Unidos, quando cinco jovens negros do bairro do Harlem foram condenados sob a falsa acusação de estupro de uma mulher no Central Park. Na minissérie Olhos Que Condenam (When They See Us, no original), a diretora Ava DuVernay (cineasta por trás de Selma e A 13ª Emenda) escancara mais uma vez todo o sistema judicial americano cuja temática, assim como foi no documentário A 13ª Emenda, questiona a invisibilidade que os jovens negros são para a justiça uma vez que eles estão entre os que mais morrem e os mais encarcerados do mundo.

Olhos Que Condenam é uma das poucas produções que assisti neste ano que me deixou sem fôlego. Quando a narrativa começa durante a noite de 19 de abril de 1989, onde quatro dos cinco jovens protagonistas Antron (Caleel Harris), Yuseff (Ethan Herisse), Raymond (Marquis Rodriguez) e Kevin (Asante Blackk) participam de um “rolê” no Central Park com outros adolescentes do Harlem, eles não poderiam esperar que mais tarde todos se arrependeriam de participarem daquele ato. Não porque estavam praticando delitos graves, mas porque ao mesmo tempo que eles perturbavam quem andava ou corria no parque, um crime brutal de estupro estava acontecendo no mesmo local. Quando o corpo foi encontrado, a polícia iniciou buscas. Mas foi, na verdade, uma promotora quem resolveu “ligar os pontos” e começar uma obstinação sem precedentes para acusar os garotos.

Quem se juntou aos quatro mais tarde foi Korey Wise (Jharrel Jerome, já é uma das atuações mais marcantes que assistiremos em 2019), levado pela polícia apenas porque não queria deixar o seu amigo Yuseff ir até a delegacia sozinho. É neste exato local onde o jogo psicológico da promotoria para montar um caso contra os garotos começa (com a permissão da polícia, claro). Interrogados por mais de 30 horas, sem a presença de adultos e sofrendo torturas para inventarem uma história que convencesse os policiais (e posteriormente, o júri), foi aí que estes jovens perceberam o quanto as suas vidas são irrelevantes para a polícia (e para a justiça).

Ava DuVernay monta uma estrutura muito eficiente para contar a história. Isso porque após os dois primeiros episódios, quando a trama se concentra entre remontar a “arruaça” que acontece no parque e os momentos de angústia que passam sendo interrogados pela polícia, daí pra frente cada um dos cinco jovens ganham episódios-solos onde suas trajetórias nos centros de detenção são contadas, assim como o preconceito que sofrem quando saem e as dificuldades que passam com seus familiares tentando sobreviver. São histórias comoventes, mas a que mais marca realmente é a de Korey Wise. Com 16 anos na época do julgamento, ele foi direto para a penitenciária. E lá ele precisou testar os limites de sobrevivência e da sua própria sanidade. Esquecido pelo sistema e jogado no meio de tanta gente má, o ator Jharrel Jerome entrega uma performance capaz de nos deixar tão angustiado que torna-se realmente difícil de digerir até o fim.

Entretanto, Olhos que Condenam é uma série necessária de ser vista. Impactante, forte e muitas vezes revoltante, Ava DuVernay foi mais uma vez contra o sistema para apontar o dedo e dizer de quem foi a culpa. O judiciário, o qual deveria trazer justiça e ter isenção no julgamento, em nenhum momento foi justo ou fez questão de ouvir os dois lados. A promotoria queria fazer justiça com as próprias mãos. Muito similar a uma história que está acontecendo neste exato momento no Brasil. No caso de Olhos que Condenam, a injustiça fez com que cinco garotos perdessem todas as boas experiências da adolescência que possivelmente teriam. No fim, eles foram soltos e indenizados. Porém, nada será capaz de fazê-los superar os traumas que passaram e tudo o que enfrentam hoje. Mas ainda bem que a série está aí para todos conhecerem as suas histórias.

Vinícius Silva
Sou formado em Jornalismo e mestre em Gerenciamento de Negócios Internacionais. O vício em Filmes, Séries e nas Artes em geral me levaram à escrita.

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