Cinema

“Os Oito Odiados” tem a assinatura de Quentin Tarantino em cada quadro

Os Oito Odiados é um título bastante sugestivo: é o 8º filme do diretor Quentin Tarantino, que realiza uma homenagem muito maior do que apenas relembrar a sua obra, uma vez que o grande homenageado aqui é o próprio cinema. São oito personagens odiados, sem escrúpulos, perigosos e repugnantes. E, assim, nos perguntamos: como será que os seus filmes estão representados em cada um desses personagens? É uma boa questão para se refletir.

Filmado com uma câmera Panavision 70mm, com as mesmas lentes que filmaram Ben Hur (1959), Os Oito Odiados nos relembra o tempo inteiro de que estamos ali assistindo um filme especial. É como resgatar aquela magia de ir ao cinema, acompanhar a abertura dos créditos por uma trilha característica (aqui composta pelo genial Ennio Morricone) e simplesmente se deixar levar pela beleza estética criada por tudo que envolve o filme: as imagens, o texto, a história e os personagens.

E por ser um filme justamente de Quentin Tarantino, tudo isso é bastante importante. A Panavision 70mm ajuda no conceito de Os Oito Odiados pois cria uma imagem mais larga em relação à que estamos acostumados, que é na proporção 16:9. Isso implica em termos uma visão melhor sobre o espaço da filmagem, cujos cenários é a neve da região do Wyoming, uma carruagem e uma loja que serve de abrigo para esperar a tempestade passar – o que levará de dois a três dias. Nessa loja, o uso da Panavision 70mm se mostra essencial pois essa largura maior faz com que tenhamos uma visão bem mais ampla sobre todos os personagens naquele espaço, contribuindo para enxergarmos a mise-en-scène.

A história de Os Oito Odiados é ambientada durante o final da Guerra Civil americana centrada em personagens extremamente perigosos, como é o caso de John Ruth (Russell), que encontra no meio de uma forte nevasca outros dois personagens-chave, enquanto leva a prisioneira Daisy Domergue (Leigh) de carruagem para ser executada e aí ganhar o dinheiro que foi colocado pela sua cabeça. O Major Marquis Warren (Jackson) é o primeiro e leva consigo os seus prêmios, e depois o suposto Xerife Chris Mannix (Goggins), que ainda será empossado e pega uma carona também para fugir da morte por congelamento. Já na cabana, eles encontram ainda outros homens que sabemos não ser de nenhuma confiança. E ficamos aguardando aquele momento em que tudo sairá do controle – se é que algum controle existia.

Sendo o oitavo filme de Tarantino, é interessante prestar atenção em determinadas características que já o transformaram em um dos principais diretores da sua geração. A estrutura narrativa em capítulos é o ponto inicial dessa jornada, algo que é comumente visto durante toda a sua obra (Bastardos Inglórios, Pulp Fiction, Kill Bill em ambos os volumes e também no recente Django Livre). Assim como a escolha dos atores: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Tim Roth e Michael Madsen que já trabalharam com o diretor em longas anteriores. Além disso, não há como falar sobre um filme de Tarantino e não mencionar o seu roteiro, sempre ágil, com muitas referências (que chegam ao pop), por vezes cômico e em outras consegue ser tão tenso que é praticamente impossível não prender a respiração na ânsia do que vai acontecer.

Tudo isso Tarantino colocou em Os Oito Odiados. O desenvolver da trama mantém o suspense até o momento em que as coisas realmente acontecem e cria um desenrolar na medida em que àquela expectativa pela situação de confronto iminente da história avança, os personagens vão se conhecendo na cabana e a espera pela nevasca passar vai se tornando, para eles, perigosa, e para nós (espectadores), cada vez mais agonizante.

Nessa nova incursão pelo gênero faroeste após o excelente Django Livre, Os Oito Odiados não fica atrás do seu antecessor. Pelo contrário, é um filme que parece complementar a estética que Tarantino vinha trabalhando anteriormente, entregando um produto ainda mais coeso e esteticamente impecável. A história, centrada em um período tão distante como o da Guerra Civil americana, soa atual pelo preconceito e morte de americanos negros por policiais, uma causa que o próprio diretor já abordou na mídia e recebeu até ameaças de grupos policiais.

Os Oito Odiados tem a assinatura de Quentin Tarantino em cada quadro. E, como em todo filme do diretor, acaba conseguindo ser muito mais do que qualquer um esperava.

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