Cinema

‘Patti Cake$’ segue o conto de fadas de uma garota que sonha em ser rapper

Não irão faltar comparações entre Patti Cake$ e 8 Mile: Rua das Ilusões, o qual narra a trajetória de Eminem e é ambientado em Michigan. Há de fato muitas semelhanças, inclusive em termos de trajetória. Mas uma diferença é crucial para a história: Patti é uma mulher, batalhando para ser rapper em um cenário extremamente machista e uma cidade, aparentemente, amaldiçoada. New Jersey pode também ter suas similaridades com a Michigan de Eminem, mas o que nossos olhos veem é uma região industrial meio perdida e totalmente diferente da irmã de Nova York. Não é uma terra de oportunidades. É uma terra de dar duro, como tão bem imortalizou Bruce Springsteen em suas músicas – e mais recentemente em sua autobiografia.

E não demora muito tempo para perceber tudo isso em Patti Cake$. Não só por ouvirmos logo de início a canção “The Time That Never Was”, de Bruce Springsteen e sua E Street Band, mas justamente por essa paisagem que parecem ter sido totalmente inspiradas pelas páginas do livro das canções de Springsteen. A canção do filho de Jersey ali já avisa que Patti Cake$ é um filme que trata-se da persistência por um sonho enquanto a sua protagonista “anseia por um outro mundo” o qual ela fantasia em sua imaginação, até o despertador acorda-la a obrigando viver mais um dia que possivelmente irá afasta-la mais desse sonho.

São decisões como essa que fazem de Patti Cake$ um filme surpreendente e tocante. O estreante diretor e músico Geremy Jasper (também responsável pelo roteiro e pela trilha original) acompanha de perto o cotidiano de Patricia Dombrowski (Danielle MacDonald, uma das surpresas do ano) e o seu conto de fadas para se tornar uma rapper. Abandonada pelo pai e criada pela mãe Barb (vivida pela atriz e música Bridget Everett, em ótima performance), que tentou seguir carreira artística como cantora de uma banda de Blues até engravidar e desistir. Patti quer ser rapper e, ao contrário da sua mãe, quer ir até o fim – ao mesmo tempo que se sente inspirada por ela e pela sua devoção à música. Ela tem a ajuda de Jheri (Siddharth Dhananjay), seu melhor amigo e também rapper, que é um apoio para ela transitar nesse mundo machista e de letras que tentam intimidar as mulheres com xingamentos e maus-tratos naquelas batalhas de rimas, como bem fica claro na cena que acontece no estacionamento de um posto de gasolina.

Patti Cake$ esbarra naqueles clichês necessários que não poderiam faltar quando a trama é música: rejeição por parte das gravadoras, descrença da família e muita gente dizendo que não vai dar certo. Às vezes dá a sensação de que estamos assistindo uma continuação de 8 Mile: Rua das Ilusões, mas agora protagonizado por uma mulher. E mesmo assim, o filme encontra a sua maneira de contar a história, estabelecendo não só a identidade visual de tons esverdeados em cada quadro que nos remete aos sonhos de Patti, mas principalmente o tom sufocante de angústia quando a vemos em casa rodeada por uma bagunça que também representa a sua própria vida, largada para tentar a própria sorte. O consolo que Patti encontra está na relação com a sua avô Nana (Cathy Moriarty, há quanto tempo!), e em seu interesse amoroso por Basterd (Mamoudou Athie), que lhe dão o suporte e o empurrão necessários para não se deixar destruir pelas adversidades.

Patti Cake$ também tira um momento para sutilmente criticar a digitalização da indústria fonográfica. Como naquele filme Sing Street: Música e Coração, há uma mistura de romantismo e saudosismo por vinis, discman, gravando CDs e entregando por conta própria – ao mesmo tempo que produzem e distribuem juntos panfletos divulgando uma apresentação. Nem todo artista vai chegar ao Spotify, Tidal ou Apple Music, mas isso não quer dizer que não é possível sonhar. A história como a de Patti é a que mais se aproxima à de outros jovens que, assim como ela, estão lutando para serem descobertos e reconhecidos em uma indústria tão desleal e concorrida.

Assista o trailer:

Patti Cake$ (Patti Cake$, 2017)
Direção: Geremy Jasper
Roteiro: Geremy Jasper
Elenco: Danielle MacDonald, Bridget Everett, Siddharth Dhananjay, Mamoudou Athie e Cathy Moriarty.
Duração: 108 minutos

[Crédito da Imagem de Capa: Reprodução]

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