O tema vulnerabilidade está de alguma forma sempre aparecendo para mim ultimamente, desde que eu assisti a uma apresentação Brené Brown sobre o assunto e que me fez refletir. Este também é o tema principal de “Dor e Glória”, novo filme dirigido pelo cineasta espanhol Pedro Almodóvar e que chegou recentemente ao circuito no Brasil. Pessoalmente, sempre quis esconder as minhas vulnerabilidades, principalmente quanto ao fato de usar óculos.

Na infância, eu não tinha como “guardar o segredo”. Porém, quando pude usar lentes de contato, eu tentava de todas as formas não me apresentar a ninguém usando-os – até mesmo à minha namorada (hoje, esposa). Foram meses sem deixá-la me ver de óculos. Mesmo não sendo indicado, eu colocava lentes de contato logo de manhã cedo após tê-la usado durante um longo período no dia anterior. Até o momento que me deixei ser vulnerável e foi libertador saber que eu não dependia disso para ser aceito.

No caso de “Dor e Glória”, as vulnerabilidades têm tudo a ver com o processo criativo do cineasta Salvador Mallo (interpretado por Antonio Banderas e uma espécie de alter-ego do próprio Almodóvar). Há quase 30 anos sem filmar, suas experiências agora se resumem a controlar as dores crônicas que sente nas costas, as insônias e a necessidade de tomar diversos remédios controlados para aliviar tantos outros problemas que ele sente. Ao mesmo tempo, Mallo se pega diante de uma revisita às suas memórias na infância e adolescência. E é aqui que podemos ver algumas das referências aos trabalhos anteriores do diretor espanhol.

Dor e Gloria-Banderas

A primeira memória de Mallo, e principal, é em relação à sua mãe (interpretada por Penélope Cruz). O relacionamento forte e próximo entre os dois molda a personalidade de Mallo. No cinema de Almodóvar, as mulheres são figuras importantes, necessárias e ditam o ritmo da narrativa. Basta lembrar de “Tudo Sobre a Minha Mãe” (1999), sua 13ª película que presta uma homenagem às mulheres da comunidade La Mancha, a mesma em que ele cresceu durante a sua infância. Com o passar da narrativa de “Dor e Glória”, sentimos que essa relação intensa deixou um sentimento de culpa em Mallo por não ter cumprido os últimos desejos da sua mãe. Me parece, no entanto, que há muito mais ali: a superproteção nos tempos de criança criou uma dependência. E nunca esse tipo de coisa é sadia – e os próprios momentos que passam no hospital pode nos remeter a “Fale com Ela” (2002), ainda que de forma distante.

“Dor e Glória” já era assim mais um filme brilhante na importante filmografia do cineasta espanhol. Mas a obra ganha ainda mais brilho quando Almodóvar permite que o seu espectador o enxergue por completo e sem as barreiras impostas pelo estrelato que tanto ele quanto o seu personagem principal no filme conseguiram alcançar. Ao entrar no campo amoroso, vemos o remorso e a amargura sentidos por Mallo por conta de um relacionamento mal acabado (muito mais até do que as próprias rusgas que teve com o ator do seu filme mais conhecido). Em tempos de preconceitos e intolerâncias cada vez mais latentes, a história de amor entre Mallo e Federico, e o reencontro que ambos têm muitos anos depois da fatídica despedida, pode muito bem lembrar a história de Ignacio e Enrique, personagens do filme “Má Educação” (2004), que também se reencontram após as experiências traumáticas que passaram enquanto estudaram no colégio católico (e que no filme “Dor e Glória” Salvador, ainda criança, manifesta o seu desejo de não ir).

Pedro Almodóvar sempre acreditou que “todos os filmes falavam de nós”. E em “Dor e Glória”, o diretor mais uma vez traz esta máxima ao colocar tela a história de um personagem que se confunde com a sua própria, e que pode dialogar com a trajetória de basicamente qualquer pessoa (sem diferenças). Talvez ele pudesse escrever um livro autobiográfico? Sim, ele poderia. Mas a linguagem que Almodóvar escolheu para se comunicar com o seu público e com o mundo foi através dos filmes. E mais uma vez ele realizou uma obra delicada, que somente o próprio Almodóvar em todo o seu brilhantismo é capaz de realizar.

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