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Por que Better Call Saul é a série de melhor direção na TV?

Better Call Saul é uma série que trata da mudança de um personagem. E essa constante do programa é sempre testada através da filmagem, que acompanha essa transformação. Então, como um grande e notável contador de histórias que é, Vince Gilligan (co-criador de Better Call Saul e criador de Breaking Bad) e seu parceiro Peter Gould (co-criador de Better Call Saul) sabem como poucos na televisão o quanto o poder da imagem define a história. Foi assim em Breaking Bad, na companhia do talentoso diretor de fotografia Michael Slovis. Juntos eles desenvolveram cenas que se caracterizaram por serem mais abertas e de planos longos ao invés dos tradicionais close-ups (ajudados pela uso massivo de televisores widescreen que passaram a vigorar desde então).

O mesmo acontece agora em Better Call Saul. Um spin-off que nasceu sem chamar tanta atenção no início e, de maneira devagar, vai encontrando o seu público e o cativando. Sem alardes, está novamente se transformando no que de melhor a TV exibe, alcançando o mesmo tipo de reconhecimento que Breaking Bad teve. Para adquirir esse status, Better Call Saul tem nos levado por uma longa jornada de estudo de personagem onde cada temporada conhecemos um pouco da faceta de Jimmy McGill.

Não é à toa que Breaking Bad é considerado “o seriado mais cinemático da televisão”. Agora quem caminha também nessa direção é Better Call Saul, sem a batuta de Michael Slovis mas tendo Arthur Albert (1ª e 2º temporadas) e Marshall Adams (3ª e na atual 4ª temporada e que trabalhou ao lado de Slovis nos últimos episódios de Breaking Bad). Ambos, ao jeito deles de filmarem, estão honrando o aspecto visual de Breaking Bad ao mesmo tempo que se aprofundam em outras técnicas considerando que agora o foco não é Walter White e sim Jimmy McGill. Por se tratar de um estudo de personagem em que acompanhamos a transformação de um aspirante a defensor público se transformar em um advogado de criminosos e bandidos das mais variadas espécies, cada sequência de Better Call Saul importa e cada cena carrega um simbolismo relevante por trás.

Os planos abertos de Breaking Bad foram se notabilizando por se tornarem mais escuros à medida que a personalidade de Walter White foi se tornando cruel e sem limites, enquanto que os mais fechados eram responsáveis por transmitir claustrofobia porque a metáfora de você se enfiar em um buraco e de tentar sair enquanto suas ações apenas o fazem ir mais fundo, é a que melhor define a série. Better Call Saul não é diferente, buscando referências inclusive no cinema noir e na fotografia de Vittorio Storaro no filme O Conformista (1970), dirigido por Bernardo Betolucci e vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado naquele ano. Arthur Albert disse em uma entrevista que o objetivo ao olhar para essa obra foi o seu interesse de trazer as sombras diagonais de O Conformista para o universo de Better Call Saul, uma técnica que vemos repetidas vezes em conversas nos estacionamentos ou interiores de cafeterias.

Ao mesmo tempo, Better Call Saul amplia a nossa visão ao dar profundidade e ponto de fuga às cenas. Um sinal claro do quanto aqueles personagens realmente habitam aquele mundo. As camadas sombrias foram se desenvolvendo lentamente ao mesmo passo da personalidade de Jimmy. Na terceira temporada já eram muitas cenas filmadas em ambientes noturnos. E no quarto ano isso continuou, basta lembrar da ação de Jimmy vendendo celulares em uma loja de cachorro-quente ou a sequência do estacionamento quando ajuda a invadir um escritório de vendas de copiadoras para roubar um objeto de arte que valeria alguma grana no mercado negro.

Mas outros elementos também começaram a chamar atenção e contribuíram para esse aspecto. Um deles é o relacionamento com Kim Wexler. Aqui entra o poder da montagem de Better Call Saul em contar a história. Porque no episódio ’Something Stupid’, a montagem mostra durante cinco minutos a transformação da relação dos dois, desde quando eles estão totalmente comprometidos um com o outro até o completo afastamento onde o significado de estarem juntos se perdeu em alguma dessas camadas sombrias que Better Call Saul usa.

Em contínua transformação, assim como o seu personagem principal, Better Call Saul amadurece na quarta temporada todas as mudanças que ainda acontecerão com o seu anti-herói. E são elas que guiam a câmera e o roteiro, enchendo os olhos de quem assiste com tamanho preciosismo.

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