Cinema

Precisamos falar sobre Martin Scorsese

Essa é a primeira postagem do GoodFellas, o blog do Trívia. E como não poderia deixar de ser, é sobre o diretor Martin Scorsese. Isso porque fomos inspirados não somente pelo filme Os Bons Companheiros (1990), mas sim por toda a sua carreira como diretor e de profundo amor ao cinema. Ainda que desconhecidos, estamos no hall de diretores como Quentin Tarantino e Paul Thomas Anderson, dois cineastas importantes que já disseram em muitas oportunidades o quão foram influenciados pelos filmes de Scorsese. E com certeza outros tantos também essenciais disseram o mesmo.

Há um tempo atrás, antes mesmo de surgir a ideia do blog, assisti tardiamente um dos primeiros filmes do diretor. Caminhos Perigosos (1973) foi lançado em seguida à Quem Bate à Minha Porta (1967), que ainda não vi mas que o crítico Roger Ebert dizia na época que “em dez anos Scorsese será considerado o Fellini americano”. A história foi escrita e sabemos que ele não estava errado em afirmar isso.

Caminhos Perigosos marca a primeira contribuição entre Martin Scorsese e Robert De Niro (juntos fizeram oito filmes mas ainda um desconhecido neste), e o segundo longa em que o diretor trabalha com o sempre ótimo ator Harvey Keitel que faz o personagem principal, Charlie, que se assemelha em muito com a própria vida de Scorsese: ambos cresceram em Nova York, conviveram com a violência no bairro onde moravam e, acima de tudo, católicos que carregam uma enorme culpa dentro de si mesmos. Este é uma assunto recorrente em seus filmes e também em Silence, longa que deverá ser lançado ainda neste ano e que trata de missionários portugueses que viajam ao Japão para impedirem que senhores feudais torturem padres católicos.

Scorsese utiliza em Caminhos Perigosos, mesmo que ainda em busca por uma identidade (uma linguagem) para os seus filmes, características que estiveram presentes em toda a sua filmografia: a luz vermelha que indica perigo, a câmera lenta, a boa trilha sonora, a violência e a câmera nervosa em cenas de briga como se vê em uma sequência particularmente emblemática para mim em Caminhos Perigosos na pancadaria desenfreada em um bar e onde Scorsese (recém-formado em Cinema pela New York University) claramente demonstra ainda estar aprendendo o que fazer, testando as suas habilidades, os seus limites e enxergando o que pode ser feito na cena.

"Caminhos Perigosos" foi o filme de Scorsese que pela primeira vez atraiu a crítica. | Foto: Reprodução
“Caminhos Perigosos” foi o filme de Scorsese que pela primeira vez atraiu a crítica. | Foto: Reprodução

E o que vemos em cada quadro de Caminhos Perigosos é uma preparação para o que se enxerga em cada filme que ele lança a partir dali. De Taxi Driver (1976, leia aqui o especial publicado pelo Trívia) a Touro Indomável (1980); de A Cor do Dinheiro (1986), passando por Os Bons Companheiros (1990) até chegar em Casino (1995). Há uma relação intrínseca (talvez até pouco pensada ou controlada) entre eles que culmina no questionado Gangues de Nova York (2002), filme que ele demorou 30 anos para filmar. Um tempo que Scorsese usou para aprimorar a sua própria linguagem, a sua técnica de contar uma história e o seu conhecimento sobre a arte que tanto ama.

É por causa disso que essa primeira postagem é dedicada a Scorsese. Caminhos Perigosos não é o melhor filme de “Marty”. Mas é sim o melhor longa-metragem para conhecê-lo: do jovem que cresce acreditando na Igreja Católica (e que lhe dá um imenso sentimento de culpa que ele foi passando para cada um de seus personagens), cercado pelos mafiosos do bairro e admirando cada um deles, até o homem que resolve se tornar seminarista. Mas que se encontrou mesmo como cineasta. E quem ganhou com isso fomos nós.

[Crédito da Imagem: Reprodução]

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