Cinema

Rebecca Hall entrega a melhor atuação da sua carreira em 'Christine'

Em 1974, a âncora de um programa de notícias em Sarasota (Florida), Christine Chubbuck, se matou ao vivo. Isso não é nenhum spoiler porque já se sabe disso muito antes do começo do filme Christine. O ato de Christine coincide com uma série de momentos que não vão dando certo para ela – o que só aumenta a sua depressão, uma doença silenciosa que quando se manifesta é fatal.

Mas a questão de “dar certo” é muito relativa porque dada a agressividade da sua doença, mesmo coisas que dessem certo e levantassem o seu humor poderiam ser facilmente escondidas tamanha a sua falta de acreditar em si mesma. E Christine Chubbuck só é lembrada mesmo pelo suicídio que cometeu naquela noite, quando se colocou à disposição para apresentar o jornal – mas já tendo em mente todo o ato que cometeria.

Entretanto, o diretor Antonio Campos e o roteirista Craig Shilowich não se apegam apenas ao suicídio em si (já que é inevitável finalizar o filme com um tiro), mas a uma consequência de fatores os quais eles exploram e tentam investigar. E é aí que a atriz Rebecca Hall entrega a melhor performance da sua carreira e o filme mergulha em um estudo de personagem fascinante.

CHRISTINE (Christine, 2016) | Foto: Reprodução

O seu suicídio foi causado em parte, claro, por um estado de saúde responsável pelo humor inconstante, mas também pelo ódio crescente com o próprio jornalismo (e o canal para o qual ela trabalhava) que estava caminhando para reproduzir notícias sensacionalistas. E não preocupado em contar histórias relevantes, personagens comuns que pudessem inspirar a audiência. Na verdade, o público não queria ver esse tipo de história. Junta isso com as próprias decepções na vida (o fato de nunca ter tido um relacionamento e de não conseguir uma promoção que tanto queria) e temos a combinação dolorosa que a levou a cometer o trágico ato.

Mas ao contrário de soar como frágil ou depressiva ao extremo como poderíamos imaginar, a atriz Rebecca Hall retrata Christine como uma mulher forte, intimidadora, detalhista e determinada com a profissão. O filme de Antonio Campos dá espaço para enxergamos a talentosa atriz como nunca tivemos a oportunidade de ver. A fragilidade de Christine é vista em sua relação com a mãe, com seus colegas de trabalho e principalmente em sua postura física (sempre corcunda como se carregasse um enorme peso nas costas) e na forma como costumeiramente seu olhar desvia da atenção do outro ao evitar contato visual, que só reforçam seu medo e seu afastamento dos que estão à sua volta.

E assim como o jornalista Howard Beale no clássico filme Rede de Intrigas (Network, 1976), dirigido por Sidney Lumet e escrito por Paddy Chayefsky, é justamente o trabalho que a leva a odiar a profissão e o usa como manifesto na tentativa de chamar atenção para o que as notícias estavam se transformando nas mãos dos canais de televisão. De fato, isso ela conseguiu. É só triste que apenas possamos conhecer e lembrar da sua história pelo extremo ato suicídio que cometeu ao vivo e não pela reforçada crítica que ela fez com esse ato ao sensacionalismo do qual os jornais tornaram-se reféns.

Assista o trailer:

Christine (Christine, 2016)
Direção: Antonio Campos
Roteiro: Craig Shilowich
Elenco: Rebecca Hall, Michael C. Hall, Tracy Letts, Maria Dizzia e J. Smith-Cameron
Duração: 115 minutos

[Crédito da Imagem de Capa: Reprodução]

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