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Resenha: '3%' se esforça mas não consegue executar bem sua premissa

Produções que se concentram em narrativas “distópicas” ou pós-apocalípticas tentam sempre separar a sociedade em dois grupos: bons e maus. Obras como 1984, de George Orwell, ou Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, serviram de referências para produções recentes como o filme Elysium (2013) ou na série estreante Incorporated (2016), produzida por Ben Affleck e Matt Damon.

O tema sobre esse futuro onde a Terra passou por tantas transformações que a tornaram um lugar quase que inabitável é o que permeia o centro da trama de 3%, a primeira produção original brasileira que estreou neste final de semana na Netflix. O mundo pós-apocalíptico da série criada por Pedro Aguilera, e dirigida por César Charlone (indicado ao Oscar como Melhor Diretor de Fotografia por Cidade de Deus), é dividido entre o Continente (um espaço miserável onde falta água e energia, ou seja, tudo) e o MarAlto, uma espécie de paraíso onde unicamente 3% da população consegue alcançar.

[ATENÇÃO: SPOILERS A PARTIR DAQUI]

Para chegar até lá os jovens quando completam 20 anos podem se inscrever no Processo, que vai testar suas habilidades físicas e psicológicas com o intuito de selecionar apenas os melhores e merecedores para integrar a sociedade do MarAlto. O responsável pelas provas é Ezequiel (João Miguel), o qual não demoramos muito para decifrarmos sua personalidade má e controladora que, apesar de alguns conflitos, se mantém assim até o final.

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Esse é um dos primeiros problemas da série, que também falha logo no início ao entregar as tramas muito rapidamente ao oferecer soluções fáceis sem que consiga trazer adequado impacto à trama. Como a conspiração envolvendo Aline (Viviane Porto) que nunca chega a lugar algum, ou o fato de já sabermos de imediato que a Causa, um movimento contrário ao Processo e ao MarAlto, conseguiu infiltrar dois candidatos que estão participando da seleção.

A Causa, aliás, que em nenhum momento é retratada como uma ameaça real ao Processo ou sequer capaz de provocar instabilidades no MarAlto, é retratada sem boa parte da força dramática e potencial que servir para poder mostrar de maneira mais crua e verdadeira o ambiente miserável do Lado de Cá, em contraponto justamente a toda esperança que esses jovens nutrem – e que o levam a cometerem atos drásticos e violentos – a terem uma vida melhor e diferente Do Lado de Lá.

Por conta desses problemas, 3% cria uma expectativa de conflitos e reviravoltas que não se concretizam. E isso se torna um problema que a série não consegue contornar: talvez por medo de não querer se arriscar tanto ou simplesmente por não conseguir mesmo uma brecha de inserir essa trama em meio à narrativa central, que se passa dentro de um complexo cujo design de produção o torna confuso na maior parte do tempo.

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Por outro lado, o diretor César Charlone realiza um bom trabalho. Ele filma algumas sequências com movimentações laterais, o que oferece uma ideia do quanto esse Processo é torto e cheio de erros, ou no final quando sua câmera dá uma visão clara de quem na realidade saiu fortalecido após o fim do Processo (e isso já cria, inclusive, uma boa ideia do que pode acontecer na próxima temporada).

Mas 3% se torna interessante por conta de alguns personagens, mas um em especial: Fernando (Michel Gomes, em uma ótima atuação). Cadeirante, ele persegue o sonho do seu pai em poder passar para o Lado de Lá com a esperança de voltar a andar. Os outros mal conseguem espaço para mostrarem quem realmente são. Mesmo inserindo alguns flashbacks que serviriam para nos mostrarem quem eles verdadeiramente eram antes de chegarem no Processo, essas sequências pouco conseguem adicionar à história e acabam não oferecendo nada de novo no final das contas.

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Michele (Bianca Comparato, que tem um crescimento importante no final da temporada), por exemplo, é teoricamente uma das protagonistas e passamos boa parte da temporada sem conhecê-la apropriadamente. Quando chega o seu momento de ter um flashback, 3% apresenta tudo o que já contara antes sem exibir nada novo e desperdiça o potencial dramático da personagem. Ao menos a série consegue contornar situação parecida com Joana (Vaneza Oliveira), cujas motivações que a levam a participar do Processo vão lhe ajudar a se conhecer melhor, passando por um processo de amadurecimento que não conseguimos observar  no restante do grupo.

Esses problemas não tiram o orgulho que é termos uma série de produção exclusivamente brasileira dentro do catálogo da Netflix, que hoje é sem dúvida a principal plataforma onde consumimos esse tipo de produto. O bom sinal que 3% mostra nessa sua primeira temporada se passa nos últimos dois episódios, quando a série finalmente adota um tom mais tenso e amedrontador. Se 3% conseguir levar o que apresentou nesses capítulos finais para a 2ª temporada, é bem possível que a série dê um salto enorme de qualidade. É o que torcemos para acontecer.

[Crédito da Imagem: Divulgação/Netflix]

2 Comentários

    • Vinícius

      Thaís,

      Obrigado pelo seu comentário. Não está confuso, o que eu quis dizer é que a série tem muito o que melhorar na 2ª temporada. Eu fiquei com esperança de que isso aconteça, porque o último episódio houve um tratamento maior no roteiro que antes não vimos. Não sei se você sabe, mas 3% é uma websérie de 2011. Algumas mudanças foram feitas para essa adaptação para o Netflix. Mas os problemas continuaram e confesso que a série não me envolveu em nenhum momento. Pelo contrário, a estrutura parecida com Lost só a deixou mais ruim.

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