Cinema

Resenha: A Criada é um fabuloso estudo de personagem e de linguagem

Alguns temas comuns permeiam o cinema do diretor sul-coreano Chan-Wook Park. A vingança, a violência, o sexo como forte conexão entre os personagens, são elementos recorrentes em cada um de seus filmes. Na Trilogia da Vingança, por exemplo, Mr. Vingança (2002), Oldboy (2003) e Lady Vingança (2005), esse é o principal assunto que surge na tela – sempre envelopada por um cuidado estético que pouco se vê por aí em outros filmes.

A Criada, que estreia nesta semana nos cinemas brasileiros, trilha o mesmo caminho dos seus filmes anteriores. Porém, ao contrário das loucuras, insanidades e intensa violência vista não só na Trilogia da Vingança mas também em Segredos de Sangue (2013) e Sede de Sangue (2010), A Criada é um trabalho mais intimista, sóbrio e mergulha em temas que farão o espectador se incomodar.

A trama é uma adaptação do livro de Sarah Waters, o romance na “Ponta dos Dedos” (2002). Mas ao contrário de ambientar a história na mesma Londres do século 19 no qual o livro de Waters se passa, o diretor e o roteirista Chung Seo-kyung leva a história para a Coreia dos anos 30 sob o domínio japonês, mostrado em uma sequência rápida e eficiente logo nos minutos iniciais do filme quando ele adentra em uma vila pobre e tomada por soldados japoneses que usam as mulheres coreanas como bem querem.

Dentro dessa vila está Sook-Hee (Tae-ri Kim), que é cooptada pelo Conde Fujiwara (Ha Jung-Woo), um conhecido golpista, para servir Lady Hideko (Min-hee Kim), uma herdeira japonesa que vive reclusa, afastada da sociedade e praticamente presa dentro da mansão do seu tio, para ajudá-lo a se casar com a moça e herdar seu patrimônio.

A Criada (The Handmaiden, 2016) | Foto: Divulgação/Magnolia Pictures

A história, no entanto, vai mudando de perspectiva à medida que Sook-Hee e Lady Hideko se tornam cada vez mais próximas, nascendo entre as duas um amor intenso, obsessivo e de jogos psicológicos doentios que parecem levar ambas para o buraco. Mas é na estrutura com que essa trama é contada, que nos remete ao filme Quando Duas Mulheres Pecam (Persona, 1966), de Ingmar Bergman, que está o grande acerto de A Criada e a maior competência de Chan-Wook Park.

Porque a trama é contada sob diferentes pontos de vista. Quando enxergamos a história através de Sook-he é claro que entendemos e julgamos as reações de Lady Hideko e o desencanto da moça apaixonada, mas quando a história parte para a perspectiva de Hideko tudo se transforma. O filme ganha outras dimensões, percorre caminhos os quais não conseguimos julgar (ou sequer esperar) quando começamos a assistir, envereda por uma espécie de sociedade secreta no qual mulheres passam por um processo de educação totalmente voltado para os homens e dar-lhes prazer. A Criada faz isso sem perder o foco e o enquadramento da trama principal, que ganha contornos vingativos e violentos à medida que o quebra-cabeça começa a ficar cada mais nítido.

A Criada é um estudo de personagem mas também de linguagem. Porque no primeiro momento sentimos até estranheza pela forma romântica, apaixonada e doce com que Chan-wook conta a história. E sabemos que essa não é sua forma de fazer cinema. Sutilmente ele vai sombreando as cores vibrantes que antes tomavam conta da tela e revelando novas facetas dos seus personagens que não conhecíamos. E mesmo quando A Criada encontra a violência, a insanidade e o sangue tão presentes na filmografia do diretor, é possível sentir o frescor e a sensação de liberdade que antes tanto aprisionava as duas protagonistas.

Assista o trailer

A Criada (The Handmaiden, 2016)
Direção: Chan-wook Park
Roteiro: Seo-kyeong Jeong  (baseado no livro de Sarah Waters)
Elenco: Min-hee Kim, Tae-ri Kim, Jung-woo Ha e Jin-woong Jo.
Duração:
145 minutos

[Crédito da Imagem de Capa: Divulgação/Magnolia Pictures]

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