Cinema

Resenha: 'A Qualquer Custo' é uma das gratas surpresas do ano

A eleição de Donald Trump causou muita surpresa no mundo inteiro. Quando todos acreditavam na vitória esmagadora de Hillary Clinton, à medida que a contagem foi se aproximando do fim basicamente ninguém conseguia acreditar no que estava acontecendo. O filme A Qualquer Custo não oferece nenhuma explicação sobre o assunto, mas coloca à nossa disposição a imagem de uma América falida, com cidades-fantasmas localizadas no meio-oeste onde pessoas estão desesperadas por sobrevivência.

Escrito por Taylor Sheridan (responsável também pelo ótimo Sicario), o filme é o grande sucesso do cinema independente do ano, ambientado no interior do Texas e segue os irmãos Toby (Chris Pine) e Tanner Howard (Ben Foster). Toby é divorciado e com dois filhos, enquanto que Tanner saiu recentemente da prisão. Sem dinheiro para manter o rancho da família, ou pagar a pensão, os dois se juntam e começam a realizar pequenos assaltos a banco na tentativa de juntar uma quantia que possa cobrir suas despesas.

No encalço dos dois estão os policiais Marcus Hamilton (o sempre ótimo Jeff Bridges, escolhido como Melhor Ator pela prestigiada National Board of Review), prestes a se aposentar como delegado, e o seu parceiro Alberto Parker (Gil Birmingham), que não vê a hora da aposentadoria do outro. A dinâmica dessas duplas de personagens é o que faz o filme ir além de apenas uma perseguição banal que sabemos que alguma ação dará errada em algum momento. A Qualquer Custo oferece passagens de contemplação em meio à paisagem deserta e, por se passar na estrada, se transforma em um road movie capaz de nos absorver pela narrativa.

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Além da crítica social que as imagens filmadas pelo ótimo trabalho do diretor David McKenzie imprimem, que agora atinge o mainstream após uma carreira sólida em filmes de menor orçamento (iguais a este A Qualquer Custo, mas sem o mesmo alcance), o roteiro de Taylor Sheridan consegue ser eficiente ao divertir (as sequências de diálogos entre Alberto e Marcus são ótimas) e ser também reflexivo ao mesmo tempo (o amor entre dois irmãos e a tentativa de ambos de não deixar a pobreza que marcou suas vidas se transformar em uma condição hereditária para o restante da sua família).

Há um tom melancólico à medida que a trama avança e que a música de Nick Cave e Warren Ellis (ouça ao fim dessa resenha) e que merece ser indicada nas premiações desse ano só reforçam a desesperança e o abandono os quais esses personagens estão inseridos. Por fim, Chris Pine e Ben Foster fazem um ótimo trabalho com seus personagens, em que a personalidade tranquila e segura de um complementa a explosão e o instinto mais selvagem do outro.

Já Jeff Bridges e Gil Birmingham lembram a dupla formada por Woody Harrelson e Matthew McCounaghey na 1ª temporada de True Detective, com destaque para Bridges que nos faz rir com suas piadas preconceituosas em relação ao seu parceiro, e também emocionar em uma das cenas de maior tensão do filme. Em tempos tão incertos, A Qualquer Custo é um retrato daquilo que não acreditamos que exista.

Ouça a trilha sonora de Nick Cave e Warren Ellis:

A Qualquer Custo (Hell or High Water2016)
Direção: David Mckenzie
Roteiro: Taylor Sheridan
Elenco: Chris Pine, Ben Foster, Gil Birmingham, Jeff Bridges e Dale Dickey.
Duração: 102 minutos

[Crédito da Imagem de Capa: Divulgação/Film 44]

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