Cinema

Resenha: ‘Blade Runner 2049’ soa tão grandioso que nos distancia da história

Não sou um desses fãs devotos de Blade Runner (1982), como alguns que conheci e que eram (talvez continuem sendo) muito devotos ao filme original dirigido por Ridley Scott. Quando descobri o filme, pouco depois de ter assistido Matrix (1999), eu tinha doze anos e confesso que não consegui me relacionar com a história de Blade Runner tanto quanto a de Matrix, responsável por me arrastar para a sua trama que me fez assistí-la quase quinze vezes. Mas revi Blade Runner outras vezes e a trama baseada no livro de Philip K. Dick foi me cativando porque passei a entender aquele estado de sujeira e bagunça da Terra, e de paranoia e autoquestionamento da própria humanidade.

Em Blade Runner 2049, a sequência dirigida pelo diretor Denis Villeneuve (A Chegada, Sicario), é possível que a experiência se repita – apesar de ser muito cedo para dizer. É tudo verdade quanto às imagens exuberantes captadas pelo diretor de fotografia Roger Deakins, mas essa sequência não se assemelha em nada ao clima estabelecido pelo seu antecessor. E escrevo isso sem querer parecer nostálgico porque não se trata de nostalgia. Blade Runner 2049 foi transformado em algo tão grandioso que, ao contrário de nos aproximar da história, acaba mesmo é nos afastando.

[ATENÇÃO: SPOILERS A PARTIR DAQUI]

E não por culpa do próprio Deakins, mas Blade Runner 2049 nem de longe resgata aquele mesmo estado claustrofóbico do primeiro. Será que foi tão possível mudar tanta coisa em 35 anos? Aparentemente, não. Os replicantes sim. Esses se tornaram mais evoluídos, criados pelo visionário Niander Wallace (Jared Leto). Enquanto isso continuamos sem saber o que existe fora da Terra, que se mantém um planeta sucateado e envolto por uma sujeira a qual Deakins e Villeneuve captam muito bem. É dentro dessa poeira que acompanhamos um desses novos modelos, o agente K (Ryan Gosling), em suas investigações para caçar os andróides dos modelos antigos de replicantes que se rebelaram quando houve o apagão que mudou a ordem e o estado das coisas desse mundo distópico.

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Enquanto Denis Villeneuve honra e presta homenagens em cenas que foram recriadas do original, como aquele plano aberto com anúncios de empresas (será que elas ainda existirão em 2049?) ou, ainda, a cena clássica dos movimentos nas ruas de Los Angeles quando acompanhamos o agente K em suas diligências, Blade Runner 2049 é eficiente ao nos manter curiosos sobre o que foi preparado para esta sequência. Ao mesmo tempo entrega inúmeras reviravoltas (apesar de nunca serem surpreendentes) e poucas ameaças que de fato estabelecem alguma tensão – como as ações causadas pelo Nexus 8 do primeiro filme. O que mais chega próximo de um suspense é pelo ótimo desenho de som, capaz de nos fazer ouvir os movimentos com nitidez e responsável por prender a atenção em muitos momentos.

O que é problemático em Blade Runner 2049 é uma falta de sincronia que existe entre a beleza estética das imagens e a distopia que indica bagunça, desordem. Tudo parece certinho demais e no devido lugar no filme de Denis Villeneuve, enquanto o compositor Hans Zimmer se encarrega de deixar a produção grandiosa sem necessidade. A história de Blade Runner 2049 não pede que a trama seja como um filme do Batman. Não há heróis. Muito pelo contrário: há uma série de más decisões que foram tomadas e levaram ao mundo à catástrofe que enxergamos. Não só no desenvolvimento de mais e mais replicantes o qual faz girar um ciclo que só piora, mas principalmente pelo futuro tão desprovido de esperança que a história nos passa. Mas parece que ninguém no filme entendeu isso. O essencial foi soar bonito para a plateia admirar, mas não o suficiente para nos fazer pensar e refletir.

E assim Blade Runner 2049 não nos deixa muitas pistas para pensarmos após o filme. Até hoje ainda se discute se Rick Deckard (Harrison Ford) é um replicante e, se sim, em qual momento é possível perceber isso no longa original. Eu não sei dizer e ainda não me ocorre que ele de fato seja, mas Denis Villeneuve não traz questionamentos como esse para o seu filme. Aliás, ele tenta até descreditar e resolver o mistério de forma simplória, quando Wallace argumenta se tudo não foi programado por Tyrell, atraindo Rick até a sede da empresa para fazê-lo se apaixonar por uma outra replicante e, assim, concluir a última fase do experimento – que era provocar o nascimento de uma criança. Em outros momentos, quando uma reviravolta é lançada na trama e que nos dá espaço para interpretar (a sequência que mostra o implante de memórias sendo feito), a resposta é imediatamente contada após algumas cenas – ou no final.

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Outras obras recentes, e com temas similares aos de Blade Runner 2049, nos fizeram refletir até mais. Como é o caso do filme Ela (2013), de Spike Jonze, sobre inteligências artificiais com fins comerciais para servirem como interesses amorosos dos humanos, ou a série Westworld que, certamente, deve ter servido de alguma influência para Blade Runner 2049 uma vez que tanto os sintéticos do filme de Villeneuve quanto os da série da HBO, assim que conseguem desenvolver consciência e a entender o lugar deles no mundo, se rebelam e questionam a própria existência ao lutar contra aqueles que os criaram e que acreditam ter o controle sobre as suas almas (uma luta justa contra a exploração e nada mais).

A própria chefe do agente K, a humana e tenente Joshi (Robin Wright), diz que a alma é o que separa ela dos modelos como ele, responsáveis por darem o equilíbrio necessário para manter a engrenagem desse mundo funcionando, seja na segurança das fronteiras ou na exploração desses replicantes nas colônias. Mas alma é algo que também falta a Blade Runner 2049 em nos mostrar o que está além da superfície caótica que tenta criar, sendo esta uma experiência tão fria que nos distancia de estabelecer qualquer relação ou envolvimento com a história.

Assista o trailer:

Blade Runner 2049 (idem, 2017)
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Michael Green e Hampton Fancher
Elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Robin Wright, Jared Leto, Mackenzie Davis, Sylvia Hoeks e Ana De Armas
Duração: 164 minutos

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