Desde Demolidor que a Netflix tem conseguido sedimentar um terreno para os heróis esquecidos da Marvel – alguns que, confesso, nunca sequer tinha ouvido falar (casos de Jessica Jones e Luke Cage, por exemplo). Ao contrário do cinema, o estúdio tem dado vida própria a eles ainda que suas histórias estejam sim interligadas com o universo expandido da Marvel (e também com os outros heróis que formarão em 2017 Os Defensores).

Ambientado no Harlem, bairro negro de Nova York, Luke Cage (Mike Colter, em ótima atuação) saiu recentemente da prisão e pretende se manter longe de qualquer confusão trabalhando no salão de Henry ‘Pop’ Hunter (Frankie Faison), um espaço tido como neutro dentro do Harlem que é dividido entre gangues rivais que querem controlá-lo. Um dos mafiosos é Cornell ‘Boca de Algodão’ Stokes (Mahershala Ali, ainda melhor do que em House of Cards), dono de um clube de jazz e que tem na influência da sua irmã, a vereadora Mariah Dillard (Alfre Woodward), a oportunidade de ocupar a vaga deixada pelo Rei do Crime.

Isso porque Luke Cage se passa ao mesmo tempo que a 2ª temporada de Demolidor, uma decisão que atrapalha porque alguns fatos são lembrados em diálogos mas sem representar qualquer importância para a história. Mas também não compromete porque os quatro episódios do início da temporada servem para ilustrar o Harlem, e a cultura negra ouvida através da música ou vista em manifestações nos muros, além de contar a história do herói Luke Cage (que faz questão de ressaltar que não gosta de ser chamado assim).

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Foto: Divulgação/Netflix/Myles Aronowitz

Mas quando conhecemos o seu passado, a série Luke Cage se envolve em episódios cujas tramas se repetem sem ganhar forma. Afinal de contas, uma temporada de treze episódios seria mesmo necessário? Esse não é um problema exclusivo de Luke Cage. A segunda temporada de Demolidor passou pela mesma situação até chegar ao sexto episódio, quando a trama finalmente avança para algum ponto. Assim, vemos repetidas disputas entre as gangues, Luke Cage desmantelando os negócios de Boca de Algodão e as tentativas frustradas deste e da sua irmã de descaracterizá-lo.

Se Luke Cage peca por esses episódios que muitas vezes perdem tempo em arcos narrativos que não adicionam substância à história, a série acerta mesmo é na crítica social. Negro e punido injustamente, Luke Cage serve de cobaia por pessoas brancas para um experimento científico na prisão que, logicamente, dá errado e o transforma em um homem à prova de balas e com superforça. Ao sair vivo e se mudar de Hell’s Kitchen para o Harlem, seus poderes e sua proteção são vistos como uma esperança para os moradores do bairro, que vivem em sua maioria na pobreza, sofrem com as truculências dos policiais e os preconceitos de uma grande parte da sociedade.

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Foto: Divulgação/Netflix/Myles Aronowitz

Em tempos de muito debate nos Estados Unidos sobre a morte de negros por policiais, o alcance do movimento Black Lives Matter e pela falta de representatividade na indústria (vista tão nítida no Oscar desse ano) que gerou críticas e embargos, Luke Cage é um herói cuja responsabilidade vai muito além de ter grandes poderes. Ele representa a esperança de toda uma comunidade, que lutam para viverem suas vidas sem o medo de serem mortos a qualquer momento. A série acerta tão bem nisso que os outros problemas podem até serem esquecidos

Crédito da Imagem: Divulgação/Netflix/Myles Aronowitz

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