O novo filme do premiado diretor sul-coreano Bong Joon Ho, Okja, ficou disponível nesta quarta-feira no serviço de streaming Netflix e vem causando polêmica desde que foi selecionado para ser exibido no Festival de Cannes no último mês de maio (leia mais aqui). Isso porque a Netflix não garantia a exibição do filme também nos cinemas, um requisito do festival que, mesmo assim, selecionou a obra por dois motivos: 1) Bong Joan Ho é uma presença constante por lá; e 2) o festival claramente tentou se popularizar.

Mas Okja evoca uma discussão mais séria e urgente do que precisamente discutir a forma como os filmes são distribuídos em dias de tantas plataformas disponíveis na TV e em outros dispositivos. Chamando atenção para o abatedouro de animais concebidos geneticamente por um complexo processo de engenharia genética, a empresa “fictícia” do filme cria superporcos que servem à escalada estratégia da organização Mirando em crescer sua produção industrial e atingir um número ainda maior de consumidores.

No meio dessa questão está a garota sul-coreana Mija, cujo avô foi um dos 26 fazendeiros “premiados” com um porco bebê para participar de uma espécie de reality show idealizado por Lucy Mirando (Tilda Swinton), que é mantida sob as rédeas de Frank Dawson (o sempre imponente Giancarlo Esposito), e que por dez anos seria o responsável pelo animal até que ele voltasse gigante aos “tratos” da organização. A garota trata a superporca como sua animal de estimação, a batizou com o nome Okja e juntas passam a viver uma amizade (a mesma afeição que temos com cachorros e gatos, por exemplo). Em dez anos a porca se transforma em celebridade por ter sido a bem tratada de todos os competidores e por isso passando em todos os testes. Não demora para Okja virar o produto ideal da empresa Mirando. Quando Mija e Okja são forçadas a se separar é a gota d’água que expõe a forma como esses animais são verdadeiramente tratados para servirem a um único propósito: serem consumidos por nós.

Foto: Divulgação/Netflix

Escrito pelo próprio Bong Joon Ho, em parceria com Jon Ronson, Okja é mais um trabalho eclético do diretor, que cria uma trama de espetáculo parecido com o que ele fez em O Hospedeiro (2006), mas também mantém a diversidade dos seus trabalhos. O que não muda é a sua abordagem com a história. Okja reserva em sua primeira hora um longo tempo desenvolvendo a relação de confiança e amizade que Okja e Mija criaram juntas, sendo uma verdadeira companhia para a menina que é órfã de pai e mãe vivendo com seu avô numa região montanhosa de Seul. Posterior a isso, o filme se transforma em um estudo sobre dois lados da questão que Okja se envolve: de um lado, uma corporação gigantesca que apenas pensa em abater os animais e alimentar seus consumidores (usando inclusive a imagem pública de um apresentador “adorador de animais” para vender sua ideia, Johnny Wilcox, interpretado por Jake Gylenhaal) enquanto que do outro um grupo de ativistas liderado por Jay (Paul Dano) que sequestram a porca e montam um esquema para desmascarar as empresas Mirando.

Responsável por belos trabalhos de direção em filmes como Memórias de um Assassino (2003) e Mother – A Busca Pela Verdade (2007), Bong Joon Ho realiza em Okja mais um competente trabalho após não ter me agradado em O Expresso do Amanhã (2013). Isso se reflete na forma como reagimos às imagens, seja pelo verde do início que coincide com o olhar calmo e feliz da porca enquanto literalmente brinca com a sua amiga – e o diretor faz questão de sempre aproximar a sua câmera dos olhos do animal – ou pela expressão mais melancólica e transtornada quando a vemos fora do habitat que ela se acostumou. Esse clima mais sombrio atinge o clímax quando Okja exibe cenas do abatedouro sendo presenciadas por uma garota (e o plano aberto do diretor mostra o número incalculável de tantos outros porcos que estão ali para sofrerem o mesmo destino).

Foto: Divulgação/Netflix

Como apreciador de carne, filmes como Okja me fazem questionar o que eu como. Bong Joon Ho traz isso muito bem para o filme sem nunca dizer explicitamente o que o espectador deve fazer. E ele na verdade não precisa, basta mostrar as imagens e esperar que quem assista reflita sobre o assunto. Enquanto aqui no Brasil acompanhamos como a carne que chegava nos supermercados era processada de qualquer jeito na investigação da Operação Carne Fraca, se informar melhor sobre esses produtos é o mínimo que se pode fazer caso ainda queira comer carne. Entretanto, se esquecer (ou não se importar) com o que ingerimos é concordar com o modo desumano com o qual as empresas tratam esses animais. Essa é a maior lição que tiro de Okja, um filme que, além de tudo isso, é humano.

Assista o trailer:

Okja (idem, 2017)
Direção: Bong Joon Ho
Roteiro: Bong Joon Ho e Jon Ronson
Elenco: Tilda Swinton, Ahn Seo-hyeon, Paul Dano, Steven Yeun, Giancarlo Esposito, Jake Gylenhaal e Lily Collins.
Duração: 118 minutos

[Crédito da Imagem de Capa: Divulgação/Netfkix]

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