Cinema

‘Roda Gigante’ não merece o toque simplista de Woody Allen

Em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), Ally Singer (o alter-ego do próprio Woody Allen e narrador do filme) diz ter problemas entre o que ele pensa ser fantasia ou realidade. Para ele, isso se deve ao fato de ter crescido em Coney Island, próximo de uma roda gigante, em um lugar justamente onde as pessoas iam para se encontrarem com um mundo totalmente fantasioso e diferente daquilo que encontravam em Nova York. Woody Allen revisita essas memórias em seu novo filme, Roda Gigante, mantendo a sua tradição de continuar lançando um filme por ano – e a inconstância que vem junto com eles.

O filme é um drama sobre uma mulher, Ginny (Kate Winslet), infeliz em seu casamento com Humpty (Jim Balushi) e que encontra em Mickey (Justin Timberlake) um escapismo para a sua realidade cruel de um cotidiano baseado em brigas em casa, problemas para educar o psicótico filho e dificuldades para ganhar a vida como garçonete. Mas ao contrário de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, a narração de Mickey adiciona pouco à história e deixa uma certa intriga do por quê o aluno de uma prestigiada universidade estaria ali em Coney Island trabalhando como salva-vidas (desculpa, mas isso não soou nada plausível). Suas motivações não sabemos e, assim como Allen, aprendemos ao longo do filme a não dar muita importância para determinadas tramas.

Isso porque ao mesmo tempo que Roda Gigante gera esse romance entre Ginny e Mickey, a sua enteada Carolina (Juno Temple) retorna à Coney Island após ter sido jurada de morte pela máfia. Não demora muito e começa um interesse entre Juno e Mickey, com Ginny no meio disso tudo e sem poder impedir já que o seu relacionamento com ele era uma traição ao seu maridol. Woody Allen deixa a trama simples e bagunçada em certo momento, sendo salvo pela brilhante atuação de Kate Winslet e o trabalho de fotografia primoroso do experiente e premiado Vittorio Storaro. Porque filmar com tamanha beleza as memórias que Allen tinha da sua infância, Storaro preenche a tela com cores quentes e planos abertos que no início criam uma dimensão do quanto o lugar era bem frequentado. Sua fotografia também se atenta à claustrofobia dos personagens (logo no início do filme quando Ginny entra em casa e ouvimos nitidamente os sons do parque de diversões e suas variadas cores no fundo do quadro). Mais tarde, esses contrastes ajudam a representar a decadência e o esvaimento do lugar.

Foto: Reprodução

Woody Allen peca no filme ao abandonar a ideia inicial da narração de Mickey que, ao se proclamar um dramaturgo e escritor de peças teatrais, deu todas as pistas de que seria ele o “escritor” da história (Mickey conversa inclusive com a câmera). Isso tornaria Roda Gigante intrigante em seu jogo do que é ou não realismo (além de estabelecer esse diálogo com Noivo Neurótico, Noiva Nervosa). Woody Allen aparenta estar mais no automático e explora pouco a profundidade da sua própria história. Quem destoa é Kate Winslet, vivendo uma personagem que está à beira de um ataque de nervos, atuando histericamente e deixando essa histeria se responsabilizar por mostrar seus conflitos que tanto acompanhamos com curiosidade e atenção até o final do filme. Já o restante do elenco de apoio, porque eles estão ali para desempenhar esse papel mesmo, não chegam nem próximo de atingir o mesmo nível de Winslet.

Mesmo com os problemas, Roda Gigante é um bom trabalho de Woody Allen. Desde o lançamento a critica vem sendo feroz com esse novo trabalho de Allen. Mas nem tudo é de se jogar fora. Talvez não será um filme marcante como alguns outros lançamentos recentes (em termos de nos fazer relembrar daqui alguns anos), sendo apenas uma obra correta e com muita pouca inspiração de Allen, que não aproveita as forças da atuação de. Kate Winslet e das imagens de Storaro.  São eles que demonstram maior vontade, até mais do que o próprio Woody Allen, de se entregarem ao roteiro escrito pelo diretor. Assista o trailer:

Roda Gigante (Wonder Wheel, 2017)
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Kate Winslet, Justin Timberlake, Juno Temple e Jim Balushi
Duração: 101 minutos

[Crédito da Imagem de Capa: Reprodução]

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