Série da HBO ‘Chernobyl’ faz retrato humano do desastre

Antes de realmente dar uma chance à Chernobyl, minissérie da HBO que foi uma das surpresas e sensações na summer season, pensei que seria mais uma produção que falaria sobre o desastre nuclear que ocorreu na década de 80 na União Soviética. E assisti muitos documentários escolares sobre o assunto no meu tempo de escola, então eu não tinha muita certeza se queria assistir a série. Quando resolvi dar uma chance, percebi o meu engano logo no primeiro episódio, quando fica claro que Chernobyl vai além de relatar o que aconteceu e não guarda semelhança alguma com aqueles filmes educativos sobre o desastre.

Dividida entre a tensão pela sucessão de erros na sala de comando que culminaram na explosão do reator nuclear e o posterior julgamento do caso no tribunal soviético, essa versão de Chernobyl é mais humana do que algumas produções (e até documentários) que já assisti sobre o assunto. Essa humanidade se deve muito à autora Svetlana Alexijevich, cujo livro Vozes de Tchernóbil (Companhia das Letras, 384 págs.) serviu de referência para alguns dos dramas contados.

Chernobyl tinha todos os elementos de irresponsabilidade para acontecer. A série da HBO mostra como a ambição cegou àqueles que tomavam decisões em seguir à risca os protocolos de segurança. Não quiseram considerar em nenhum momento o que suas decisões poderiam causar. Neste sentido há muitas semelhanças da falta do controle de risco com o que aconteceu em Brumadinho, quando as más decisões e as mentiras em efeito cascata mataram 248 pessoas, todas inocentes que estavam ali, assim como os oficiais russos, trabalhando para colocar o pão na mesa de seus familiares. O mais triste é ainda a tentativa de acobertar as verdadeiras causas, tanto de Chernobyl quanto de Brumadinho.

Por essa e tantas outras razões, a jornada de assistir Chernobyl é por vezes triste e revoltante. A série é muito bem-sucedida ao fazer o espectador sentir o ar pesado da trama, seja através da trilha sonora que reproduz a melancolia e o sacrifício dos personagens, ou mesmo pelo peso carregado por muitos deles. Como é o caso do cientista Valery Legasov (Jared Harris, em atuação pra ser lembrada sempre), que foi chamado para conter a crise, terminou gravando fitas contando o que a União Soviética queria esconder e se matou exatos dois anos após a explosão em Chernobyl.

Em tempos também de tantas fake news disseminadas na Internet, Chernobyl faz um alerta do quão perigoso isso é.

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