Série documental da Netflix, 'Last Chance U' mostra dura realidade do futebol americano

Após o sucesso de crítica e de público da série documental Making a Murderer (renovada para a 2ª temporada), o serviço de streaming Netflix estreou recentemente Last Chance U, que traça um perfil dos jogadores de futebol americano da East Mississippi Community College (EMCC) que são recrutados e tentam dar talvez o último suspiro para alcançar uma bolsa escolar na divisão principal universitária (NCAA) e, quem sabe, chegar à NFL.

Como bem disse o crítico Nick Schager, “ganhar dentro de campo é muito mais fácil para esses jogadores do que vencer fora dele como estudantes”. E o que eles precisam é vencer nos dois lados porque se os estudos não vão bem, se graduar torna-se uma tarefa difícil e, consequentemente, ir para a NCAA vira um sonho cada vez mais distante e pode ser o pesadelo pelo qual muitos desses jogadores não conseguirão passar. Ao menos não sozinhos.

É por isso que o programa da EMCC tornou-se um dos mais prestigiados da liga júnior americana de futebol americano (conhecida como JUCO), na pequena cidade de Scooba, Mississippi. Logo no início do primeiro episódio, um aviso: são apenas 716 habitantes e não há nada na região a não ser um campo de futebol americano que está situado bem no meio da cidade.

O técnico Buddy Stephens é o responsável por comandar o time em uma temporada que promete ser mais uma vez vitoriosa: são 24 jogos consecutivos com vitórias, três títulos consecutivos dos últimos quatro campeonatos nacionais disputados e tendo uma boa parte dos jogadores que fizeram parte dessa recente história vitoriosa espalhados por diversas equipes da NFL.

Nas primeiras conversas, Buddy Stephens explica de imediato que trabalhar como treinador da EMCC requer um imenso esforço para lidar com garotos que vieram de famílias com problemas estruturais, a faculdade não foi a primeira escolha deles, não receberam amor ou carinho quando crianças, tiveram que conviver com seguidas tragédias que têm grande impacto em suas vidas e as quais eles tentam esconder para não parecerem frágeis, como se eles tendo crescido sozinhos soubessem tomar conta da própria vida. O que, claro, não é verdade.

Brittany Wagner tenta convencer os jogadores da importância dos estudos. | Foto: Divulgação/Netflix
Brittany Wagner tenta convencer os jogadores da importância dos estudos. | Foto: Divulgação/Netflix

Não só é verdade como uma das pessoas mais fascinantes de Last Chance U, a coordenadora e conselheira estudantil Brittany Wagner, é a que praticamente mais iremos sentir vontade de acompanhar. O seu desafio é tremendo: logo quando o semestre começa, ela precisa perguntar para um dos jogadores se ele comprou um caderno ou um lápis para usar nas aulas. E esse é o tipo de preocupação que ela precisa ter durante todo o ano letivo, isto é, fazer com que os jogadores saibam dar a mesma importância aos estudos que eles dão ao futebol, porque sem o primeiro eles não irão conseguir alcançar os objetivos e sonhos do segundo.

Em encontros regulares na sua sala, ela conversa com os jogadores (na maioria das vezes eles estão mais entretidos em seus celulares e fones de ouvido) e tenta garantir que as notas desses atletas estejam dentro da média para que eles não deixem de ser elegíveis para os jogos. Em um episódio, a vemos carregando um grupo de cinco ou seis jogadores para dentro da sala de informática e obrigando eles a escreveram uma redação sobre um filme que a professora de Inglês havia passado – e que eles sequer ainda haviam entregado (sendo que o prazo já havia passado há algum tempo).

Dramas, conflitos e redenção

Em uma passagem do livro Mindset – A Atitude Mental para o Sucesso da professora de Psicologia na Universidade de Stanford, Dra. Carol S. Dweck, e que esteve na lista de livros lidos por Bill Gates no ano passado, ela diz que “muitos dos treinadores lamentam que, quando dão feedback corretivo aos seus atletas, estes se queixam por minarem a confiança deles”. Ela ainda comenta que muitos desses jogadores até ligam para casa para se queixarem aos pais. “Parecem querer treinadores que simplesmente lhes digam o quanto talentosos são”.

Essa passagem do livro da professora serve para ilustrar bem muitas situações que acontecem na série. Uma delas é a disputa pela posição de Quarterback, a principal do jogo. Sem definir um titular no início da temporada, Wyatt Roberts (natural do estado de Mississippi) e John Franklin III (transferido da Universidade de Flórida com o intuito de justamente jogar mais e despertar o interesse da Universidade de Auburn, um sonho que ele deseja realizar), disputam a posição e se alternam nas jogadas. Enquanto Wyatt é menos atlético e mais confiável, Franklin III é mais explosivo e imprevisível.

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Isso ajuda a definir uma boa disputa entre os dois e quando Wyatt começa a se destacar mais, John Franklin III a todo momento se queixa que não se transferiu para aquela universidade para ficar no banco. O talentosíssimo running back DJ Law é um outro bom exemplo de um grande jogador que se deixa abater por críticas tomadas como negativas, mas que na verdade se levadas pelo lado bom poderiam servir como impulsos para melhorar.

Além deles, é bom citar também o ótimo jogador da linha defensiva Ronald Ollie (o meu favorito na série), que perde alguns jogos da temporada por conta de uma contusão e quase desiste de tudo. Quando conhecemos o seu passado de ter perdido os pais quando tinha cinco anos, e também de onde ele veio, passei a torcer ainda mais por ele.

Na realidade, passei a torcer por cada um deles. Não é por acaso que ao final da temporada me encontrei chorando junto com Brittany Wagner com as suas histórias que, ao mesmo tempo que são inspiradoras, são também tristes e cruéis. No entanto, quando vemos como eles se recuperam, dá a dimensão do quanto esses jogadores tiveram que ser fortes em todos os momentos das suas vidas para chegarem apenas até ali – e que muitos outros desafios serão colocados à frente deles que irão fazê-los trabalharem duro e se sacrificarem para conseguirem alcançar seus sonhos.

Total liberdade

Um dos pontos positivos de Last Chance U é que os diretores Greg Whiteley e Adam Ridley tiveram completo acesso e total liberdade para filmarem e contarem essa história. Sem isso, talvez fosse impossível despertar a curiosidade e o interesse dos espectadores. E isso fica claro nos momentos mais difíceis da temporada, mesmo quando o técnico Buddy Stephens, em um ataque de raiva e agressividade ao se dirigir aos seus atletas, pede para que o câmera saia da sua frente e permaneça longe. Mas nem mesmo isso nos esconde de ver o que acontece por inteiro.

E vemos muitos desses momentos nos seis episódios. Se a equipe de filmagem não tivesse a liberdade necessária, o documentário ficaria prejudicado porque não mostraria a realidade. Se vemos momentos duros como esses, a liberdade da filmagem também permite que acompanhamos situações alegres e emocionantes.

Na eatrutura, Whiteley se concentra sempre no próximo joga da temporada, contando o dia-a-dia do time (técnicos em suas respectivas salas assistindo vídeos e se reunindo com seus atletas), dos jogadores (treinamentos duros e que alcançam o ápice da tortura nos dias de recuperação após os jogos quando precisam entrar naquelas piscinas de gelo) até chegarem na partida que irão jogar – algo similar com a estrutura narrativa da inesquecível série Friday Night Lights. Whiteley dirige os treinamentos (e os jogos) com uma beleza impressionante de imagens em slow motion e outras, de tão próximas, conseguem mostrar em detalhes os movimentos dos jogadores no campo.

Equipe teve total liberdade para filmar "Last Chance U" | Foto: Divulgação/Netflix
Equipe teve total liberdade para filmar “Last Chance U” | Foto: Divulgação/Netflix

Last Chance U é mais um acerto da Netflix no gênero série documental, como já havia acontecido com Making a Murderer. Relaciona de forma competente os impactos familiares e individuais que tem em cada jogador do time. Não por acaso os momentos mais interessantes são aqueles em que mostra a família do técnico Buddy Stephens jantando, DJ Law voltando para o antigo bairro e se dando conta de que morar ali é muito fácil para ele se corromper e seguir uma vida marginal ou quando conhecemos a família e os amigos de Ronald Ollie quando ele visita a antiga escola.

Cada jogador tem um futuro rodeado de muitas incertezas durante aquele ano letivo que é decisivo para decidir se eles terão uma carreira profissional ou não. O documentário faz com que nos importamos com esse desfecho. E torcemos para vermos esses jogadores, quem sabe, um dia na NFL. Aí poderemos ter alguma certeza de que eles conseguiram vencer.

[Crédito da Imagem: Divulgação/Netflix]

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