A música tem uma influência fundamental na forma como muitas vezes enxergamos a vida e em como nos comportamos. É a sensação que tenho até aqui, perto dos meus 30 anos, de que sempre a música que eu ouvia (ou ouço) modelou a minha personalidade e me tornou em parte a pessoa que sou hoje e que continuarei sendo. Para isso passei por diversas fases, desde na infância ouvindo Sandy e Júnior, pela primeira metade da adolescência de adoração aos Beatles (que permanece até hoje) e a segunda metade caracterizada pelo Heavy Metal e músicas cada vez mais pesadas. Até chegar naquilo que ouço hoje e em como fui me encontrando em cada gênero.

Todas essas lembranças vieram ao assistir Sing Street: Música e Coração (2016), que foi disponibilizado recentemente pela Netflix. Dirigido e escrito por John Carney (o mesmo responsável por Apenas Uma Vez e Mesmo se Nada der Certo, dois lindos longas-metragens), o filme é um culto a toda essa importância da música e suas influências na personalidade de alguém que está em processo de descoberta. Ao crescer, se desiludir e sonhar alto com as possibilidades da vida ainda sem ter qualquer ideia de que este mesmo fenômeno ainda dará muitas rasteiras que nos obrigará a levantar e continuar seguindo em frente sem nunca desistir.

O personagem principal de Sing Street: Música e Coração é Conor “Cosmo” e vi nele quase que alguém que correu atrás de tudo, sem medo, e conseguiu. Não estou dizendo que ele realizou tudo o que queria, mas ele quis ter uma banda de rock, quis tocar violão e quis escrever letras. Ao querer tanto isso ele atingiu o que ele queria. Eu mesmo sempre quis ter uma banda. Ensaiei algumas vezes no colégio. Queria aprender a tocar guitarra, principalmente. Mas sempre desisti no caminho. Às vezes por medo, mas o que resultava mesmo nessa incapacidade de seguir em frente era a “certeza” de que eu não seria bom o suficiente.

Sing Street: Música e Coração | Foto: Divulgação/The Weinstein Company
Sing Street: Música e Coração | Foto: Divulgação/The Weinstein Company

E à medida que vemos Conor formando a sua banda para agradar Raphina, a menina que ele se apaixona à primeira vista e que se torna sua musa inspiradora e inclusive “estrela” dos clipes do seu grupo Sing Street, vemos várias vezes como as bandas que ele foi descobrindo alteravam o modo como ele se vestia, a forma como ele passava a enxergar o mundo e as pessoas, como se a descoberta de nomes como David Bowie, The Cure, Duran Duran, Queen ou The Smiths naquele cenário de efervescência cultura dos anos 80 no Reino Unido, e em Dublin (onde o filme é ambientado, inclusive a rua Synge Street é vizinha ao lugar onde morei na capital irlandesa por quase dois anos), fossem capazes de lhe dá forças para enfrentar o bullying na escola, o divórcio dos pais e as próprias incertezas da idade.

Isso é o que de mais bonito tem no filme de John Carney, que longe das extravagâncias de diretores como Baz Luhrmann (O Grande Gatsby) ou Rob Marshall (Chicago), realiza uma produção muito mais preocupada na sensibilidade dos seus personagens, na forma como eles reagem ao mundo através daquilo que eles ouvem. Foi assim nos seus dois filmes anteriores e que alcança o topo em Sing Street: Música e Coração porque justamente consegue estabelecer esse diálogo com muitos que devem se enxergar em Conor quando tinham a mesma idade – ou mesmo nos outros integrantes que também fazem parte da banda. Porque, no final, mais do que serem companheiros de banda, todos eles são companheiros da vida, amizades que provavelmente serão levadas até o fim.

Nesse ano de 2016 os musicais ganharam novo fôlego através de estreias como a de Sing Street: Música e Coração e de La La Land: Cantando Estações, que ainda sequer chegou por aqui mas já vem sendo tratado dessa forma pela reação do público lá fora e nos festivais onde o filme foi exibido. Em tempos de tantas incertezas quanto ao futuro e tantas coisas ruins acontecendo que só aumentam a nossa sensação de impotência, Sing Street: Música e Coração nos deixa sonhar e nos lembra que às vezes fugir da realidade pode ser muito bom também. Porque quando voltarmos ao mundo real teremos retomado a esperança de  correr atrás para conseguir tudo o que sonhamos antes.

VEJA O TRAILER:

Direção: John Carney
Roteiro: John Carney
Elenco: Ferdia Walsh-Peelo, Lucy Boynton, Jack Reynor, Aidan Gillen, Mark McKenna, Ben Carolan e Maria Doyle Kennedy.
Duração: 106 minutos

[Crédito da Imagem: Divulgação/The Weinstein Company]

1 thought on “Sing Street: Música e Coração e as influências da música em nossas vidas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *