Cinema

‘Snowden’ é um dos filmes mais importantes do ano

Uma passagem no filme Snowden (2016), entre tantas outras informações que o filme nos entrega e que precisamos assimilar, me chamou atenção em especial. É quando ele diz que todo esse aparato tecnológico de espionagem criado pelos EUA tem um botão que poderá ser apertado por qualquer pessoa. E a primeira coisa que pensei foi em Donald Trump, agora presidente-eleito dos EUA, e que terá essa arma em suas mãos para fazer o que bem quiser e entender.

Pensei que seria difícil um filme de ficção sobre Edward Snowden, que aqui é interpretado com muita eficiência pelo ator Joseph Gordon-Lewitt (pra mim deveria ser indicado por criar uma composição tão próxima do verdadeiro Snowden), contar mais detalhes do que aqueles já exibidos pelo premiado documentário Citizenfour (2013), dirigido pela cineasta Laura Poitras (no filme interpretada pela atriz Melissa Leo).

A verdade é que o diretor Oliver Stone consegue fazer um filme tão importante quanto Citizenfour porque reabre a discussão em torno da espionagem de dados, usada pelos Estados Unidos apenas como uma forma de adquirir vantagem competitiva de caráter econômico, político e social em relação aos seus rivais. Em alguns momentos vemos líderes como Angela Merkel, Dilma Rousseff e empresas como a Petrobras, por exemplo, que foram espionados pelo serviço de inteligência americano para apenas demonstrar  sua força para o mundo da maneira mais injusta e questionável possíveis.

Em um ano com outros filmes também importantes, como é o caso de Moonlight (ainda inédito no Brasil) que se passa dentro da comunidade gay e negra dos EUA, Snowden é um filme muito atual porque Oliver Stone, um cineasta político e que gosta do tema, declara aberta sua desilusão após a crença de que as coisas melhorariam com a eleição de Barack Obama. Ao mesmo tempo, ouvimos aqui e ali outras vozes de políticos que estiveram diretamente envolvidos nas últimas eleições como Hillary Clinton, que pede que Snowden seja punido em um trecho, e Bernie Sanders que, ao contrário do que pensava seu partido Democrata, eleva o grau de responsabilidade e contribução de Snowden.

snowden-2

O filme de Oliver Stone se equilibra entre essas falas, mas acaba não sendo apenas sobre as consequências da publicação desses dados ou os momentos decisivos em que ele se encontrou em Hong Kong com o jornalista americano, radicado no Brasil e autor do livro Sem Lugar para se Esconder (Ed. Primeira Pessoa, 2014), Glenn Greenwald (Zachary Quinto), e a documentarista Laura Poitras (Melissa Leo). Há conflitos morais, que Citizenfour narra muito bem, e que ganham uma complexidade ainda mais forte pela atuação de Joseph Gordon-Lewitt agora em Snowden.

Além de não conseguir compactuar com as ações do governo americano, cujo sistema evolui desde o seu primeiro emprego na CIA – um momento que o deixou particularmente deslumbrado para depois “sair de cena” decepcionado e sem acreditar em seu trabalho -, é também importante quando a narrativa de Oliver Stone se concentra na relação de Snowden com a sua namorada Lindsay (Shailene Woodley), cuja vida também é afetada por todas as ações dele e sua crescente sensação de estarem sendo espionados a todo momento e sem qualquer privacidade.

Snowden é um filme importante também por não deixar esse tema ficar esquecido. Após três anos, continuamos debatendo o que aconteceu e preocupados com a nossa privacidade. Enquanto os EUA usam a desculpa de que estão espionando por questões de segurança nacional e terrorismo, é inimaginável a quantidade de dados que eles conseguiram obter e que se transformaram em informações valiosas para seus interesses próprios. Ainda bem que temos alguém como Snowden para nos continuar alertando sobre isso.

[Crédito das Imagens: Divulgação]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *