Sofia Coppola explora o feminino em remake de ‘O Estranho Que Nós Amamos’

Vencedora do prêmio de Melhor Diretora no Festival de Cannes desse ano, Sofia Coppola trata O Estranho Que Nós Amamos, remake de 1971 dirigido por Don Siegel a partir do romance escrito por Thomas P. Culliman, de uma forma diferente (ainda que contida). Isso porque, ao contrário de caracterizar o Cabo John McBurney (interpretado por Clint Eastwood nos anos 70 e agora vivido por Colin Farrell) explorando sexualmente e psicologicamente as moças que o oferecem refúgio, Coppola se interessa muito mais pela forma como cada uma sente e reage através da presença daquela figura masculina e que veio parar num mundo delas onde as tarefas cotidianas eram tudo que restavam pra fazer enquanto esperam a Guerra Civil terminar.

O Estranho Que Nós Amamos começa com o Cabo McBurney sendo encontrado ferido pela garotinha Amy (Oona Laurence) após enfrentar os sulistas na batalha. Ele a convence levá-lo até a residência de Miss Martha (Nicole Kidman), que funciona como uma escola e abriga outras cinco garotas que, sem terem para onde irem, se isolam ali enquanto ouvem ao longe as bombas da guerra que as lembram diariamente do conflito que acontece. A chegada do Cabo McBurney alterna completamente a dinâmica da casa e abre espaço para alguns conflitos.

Ao não entregá-lo aos soldados Confederados, Miss Martha se mostra à vontade e deseja que cada uma das garotas possa aprender alguma lição dessa repentina presença masculina. Mas é assim que reações distintas começam a mexer com cada uma delas. Alicia (Elle Fanning), de 18 anos, é a que mais demonstra estar atraída pelo Cabo; a assistente de Miss Martha, Edwina (Kirsten Dunst), constantemente troca olhares e começa a se arrumar melhor por causa da sua presença; Jane (Angourie Rice) está mais preocupada com o perigo e a ameaça de abrigar um soldado inimigo; e Miss Martha tenta manter a razão de ser uma boa católica ao invés de se entregar à emoção.

Foto: Reprodução

Interessada em contar a narrativa através do ponto de vista das mulheres, McBurney é um personagem diferente nessa versão de Sofia Coppola já que ela também dá a ele os mesmos traços humanos e frágeis que emprestam para as personagens femininas. Se Don Siegel faz de McBurney um homem mentiroso, ameaçador e repugnante, Coppola o ajusta a responder àquilo que ele sente que está acontecendo. Quando as coisas saem totalmente do seu alcance, McBurney mostra a sua verdadeira faceta – assim como as próprias mulheres que, agora enxergando o perigo que estão correndo, tomam uma decisão prática e racional sem cair em melodramas ou lamentações.

Segura sobre a forma como conduz o filme, principalmente quando mergulha os personagens nas sombras ou em contraluz que dão uma sensação de claustrofobia por todos estarem ali dividindo aquele mesmo ambiente (ainda que a casa seja enorme, como bem destaca a fotografia de Phillippe Le Sourd), Sofia Coppola faz um filme enxuto o qual demonstra ser contido em certos momentos. Seu grande acerto foi saber como encontrar os espaços para deixar a sua marca pessoal.

Assista o trailer:

O Estranho Que Nós Amamos (The Beguiled, 2017)
Direção: Sofia Coppola
Roteiro: Sofia Coppola
Elenco: Nicole Kidman, Colin Farrell, Kirsten Dunst, Elle Fanning, Oona Laurence e Angourie Rice.
Duração: 109 minutos

[Crédito da Imagem de Capa: Reprodução]

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