Sombrio e doloroso, ‘El Camino’ é um bem-sucedido epílogo de ‘Breaking Bad’

Em Breaking Bad, Jesse Pinkman (Aaron Paul) chegou a funcionar nas duas primeiras temporadas como um alívio cômico ao complexo e conflituoso drama da vida de Walter White. Desde o primeiro momento quando conhecemos Jesse, o personagem vivido por Aaron Paul conquistou o espectador pelo carisma e pelas expressões que sempre terminavam em “bitch”, sendo memes quase que instantâneos nestes tempos modernos. Aquela combinação de inocência e de fazer quase sempre tudo errado foram se perdendo rapidamente, dando lugar a um personagem marcado por traumas e por um instinto de sobrevivência. E é isso que El Camino, filme que começa exatamente de onde Breaking Bad terminou e disponível na Netflix Brasil, abraça ao dar uma merecida resolução a Jesse Pinkman.

Escrito e dirigido pelo criador de Breaking Bad e Better Call Saul, Vince Gilligan, a trama de El Camino acompanha Jesse logo após o seu sopro de liberdade. Fugitivo e ainda mentalmente preso aos traumas que marcaram o tempo quando esteve mantido em cativeiro por um grupo de supremacistas brancos, Gilligan não pega a via fácil de transformar o seu longa-metragem (que mais parece um episódio de uma série de duas horas) em uma continuação de Breaking Bad que agradaria facilmente os fãs. Ao contrário, adota um tom de suspense e observação, caracterizando-se hora pela trilha ou pela imprevisibilidade dos personagens, ao mesmo tempo que Jesse surge retraído e quase irreconhecível devido às torturas que foi submetido.

Esses elementos fazem deste um reencontro sombrio, às vezes doloroso, mas que vale as duas horas de atenção. Porque, além de um desfecho satisfatório, El Camino exibe Jesse tendo que ser adulto e agindo como tal. Mesmo contando com a ajuda de alguns amigos no início, no filme ele está por conta própria. Basta lembrar que sempre no momento da ação as ideias principais saíam da mente de Walter White. Mas em El Camino é ele quem precisa pensar em tudo, tendo que se safar das mais variadas situações para alcançar o objetivo de recomeçar. E apesar que a história deixe a impressão de ser acelerada demais, El Camino cumpre o papel de epílogo e de fechamento para o personagem – mas não ainda para o universo da série, pois Better Call Saul entrará na última temporada em 2020.

Mesmo com o meu receio de El Camino ser um tiro no pé, amparado por experiências ruins com filmes de 24 Horas, Prison Break, Arquivo X, dentre outros, é reconfortante ver que Vince Gilligan se manteve fiel à série mas sem precisar recorrer àquela trama como muleta. Tudo o que acontece em El Camino tem um propósito, mesmo nas aparições de personagens da série original ou nos flashbacks. A impressão que fica é de que não foi preciso muito esforço para transformar El Camino em um epílogo bem-sucedido, uma vez que o personagem e a trama já haviam sido bem desenvolvidas. Contudo, Jesse merecia um fechamento, e acredito que Vince Gilligan apresentou aquele que foi o mais humano e justo.

Vinícius Silva
Sou formado em Jornalismo e mestre em Gerenciamento de Negócios Internacionais. O vício em Filmes, Séries e nas Artes em geral me levaram à escrita.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *