‘Spielberg’ homenageia carreira do diretor e é cauteloso quanto à sua vida pessoal

Entrar nos filmes de Steven Spielberg é como revisitar uma memória afetiva guardada em algum lugar do nosso cérebro que nos indica o que éramos e onde estávamos quando assistimos E.T: O Extraterrestre (1982) pela primeira vez, ou as incontáveis vezes que vimos Parque dos Dinossauros (1993) e até as tentativas de estabelecermos entre nossos amigos grupos de amizade como aqueles que tanto apareceram em seus longas-metragens.

No documentário Spielberg (2017), feito para a HBO pela cineasta Susan Lacy (Janis Joplin: Little Girl Blue), toda essa trajetória da carreira de mais de 40 anos do diretor é revisitada através do olhar do próprio Spielberg e de alguns dos seus mais antigos colaboradores como John Williams, amigos como Martin Scorsese e Brian de Palma, e atores que ajudaram o diretor a contar suas histórias como Daniel Day-Lewis, Tom Hanks e Sir Ben Kingsley.

Em uma experiência que o próprio diretor denominou como “assustadora”, a trajetória de Spielberg seja como artista e também como pessoa foram passadas a limpo por Susan Lacy, que tinha mais de 30 horas de entrevista e transformou essa informação em pouco mais de duas horas de duração numa obra que, sucintamente, passa pelos filmes mais marcantes da carreira do diretor. Mas talvez ainda mais importante que isso, foi trazer para o centro da narrativa algumas das inovações encabeçadas por Spielberg que ajudaram a colocar certas transformações tecnológicas da indústria hollywoodiana em movimento, como o uso de efeitos especiais em O Parque dos Dinossauros e soluções encontradas para a limitação tecnológica para criar, por exemplo, a sequência final de Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977).

Mas na mesma entrevista que revela ter achado a experiência assustadora, Spielberg diz não gostar de auto-análise – o que ele explica também que nunca fez terapia porque encontrava suas respostas nos filmes. E o documentário tem um pouco disso, principalmente em algumas entrevistas, e torna o filme até mesmo redundante porque todo mundo sabe da qualidade de Spielberg. Enquanto Susan Lacy não se preocupa com esse cuidado de tecer tantos elogios ao seu objeto de estudo, a sua cautela foi totalmente voltada para não falar demais da vida pessoal de Spielberg. Há passagens dos conflitos familiares com o pai e a reconciliação após 15 anos, mas nenhum dos filhos ou sua atual esposa dão entrevistas.

Deixando esses problemas de lado, o que mais importa em Spielberg é a homenagem ao diretor. Não é todo dia que conseguimos ver tão profundamente análises de clássicos como Tubarão (1975) e A Lista de Schindler (1993). Isso como um registro para a história do cinema, para cinéfilos e para a arte cinematográfica é algo que agora teremos para a eternidade e que outras gerações possam visitar e conhecer os trabalhos desse grande diretor.

Assista o trailer:

Lista com os 5 melhores filmes de Spielberg

Como prometido no perfil do Instagram do Goodfellas, vou listar aqui apenas cinco filmes entre aqueles que eu mais gosto. Não vou entrar em muitos detalhes porque criei a lista de última hora com base no que assisti no documentário. Quem sabe, no futuro, eu a refaça e tente aumentar porque escolher apenas cinco filmes é muito pouco para um diretor que tem tantas obras marcantes. Vamos lá, então:

5) Os Caçadores da Arca Perdida (1981)

Eu perdi a conta de quantas vezes assisti a esse filme, seja em fita-cassete (VHS), em exibições na TV ou mesmo em DVD. Poucos diretores sabem desenvolver tão bem uma história quanto Spielberg para o gênero Aventura. Seu domínio do roteiro e dos quadros tornam Os Caçadores da Arca Perdida uma experiência magnífica que sempre nos leva a lugares onde sentimos coisas boas que nos tornam felizes de estarmos vivos.

4) Lincoln (2012)

Há algum tempo eu sentia a necessidade de rever Lincoln. E consegui fazer isso há alguns meses e o filme só cresceu em meu conceito e na minha mente. O destaque é claro a impecável atuação de Daniel Day-Lewis, que talvez seja a melhor da sua premiada carreira. Mas Spielberg recorta bem uma parte da história de Abraham Lincoln na qual o espectador consegue enxergar tudo que fez dele ainda hoje ser tão ovacionado e respeitado. Sem falar que Spielberg passa pelas (quase) incompreensíveis discussões na Câmara com inteligência e bem mastigada, capaz de nos explicar o que está acontecendo sem deixar o filme chato.

3) Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977)

Esse filme sempre me assustava quando eu assistia. Lembro de ter visto duas vezes em uma exibição noturna no canal SBT, numa sessão da qual não me recordo. Talvez pela frieza com a qual Spielberg conduz a maioria das cenas e pelo clima mais sombrio também. Como o próprio Spielberg diz, é o seu filme mais pessoal. E ele ficou com receio de se aprofundar tanto na crise da família Neary porque era justamente a história da sua própria família. Ainda, Contatos Imediatos é um filme tocante, um trabalho que comprova a versatilidade de Spielberg como diretor e contador de histórias.

2) E.T: O Extraterrestre (1982)

É difícil não se emocionar com a história de Elliot, de um garoto com uma infância perdida, de se sentir reprimido nos diversos contextos que ele vivia e de não se vê pertencente a ele. Tudo muda através da sua amizade com o visitante alienígena que fora esquecido aqui. Mais uma vez Spielberg não torna a presença desses seres extraterrestres como ameaçadora, uma preocupação crescente na época. E.T: O Extraterrestre é uma obra-prima. De verdade.

1) Munique (2005)

Eu sou fanático por filmes de espiões e qualquer coisa que envolva investigações ou assuntos criminais. E Munique é ainda hoje o melhor trabalho de Spielberg para mim porque ele cria um jogo de tensão, mesmo os Estados Unidos ainda vivendo o luto do 11 de setembro, numa caçada promovida pelo governo israelense aos assassinos dos atletas judeus nas Olimpíadas de 1972 que é realmente difícil de esquecer. Por falar nisso, preciso revisitar esse filme o quanto antes.

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