As primeiras cenas que abrem Spotlight mostram o diretor Tom McCarthy filmando a redação do The Boston Globe, o cotidiano de vários jornalistas responsáveis por noticiarem os fatos para a sociedade, o dia-a-dia das reuniões de pauta e no meio do turbilhão de notícias chegando a todo instante, está a equipe Spotlight, um grupo de quatro jornalistas investigativos formado por Mike Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matt Carroll (Brian D’Arcy James),  liderados por Walter Robinson (Michael Keaton), e que serão os responsáveis por desvendarem um dos crimes mais chocantes que fora publicado no início de 2002, poucos meses depois do 11 de setembro.

A chegada de um novo editor-chefe, Marty Baron (Liev Schreiber, em ótima atuação), faz com que o jornal defina alguns novos rumos. Apesar do medo de cortar gastos, uma solicitação que acontece sistematicamente nas redações de qualquer jornal do mundo, Baron pede para que Spotlight investigue um número recorrente de casos arquivados por parte da promotoria promotoria de padres e bispos que foram acusados de abusar de crianças há muitos anos. À medida que a equipe se debruça sobre a história, percebe que os atos acontecem de forma sistemática e, apesar de toda a história começar na cidade de Boston, eles  enxergam que as denúncias ultrapassam as fronteiras dos Estados Unidos.

Se passando na cidade de Boston, o filme mostra que esta não é realmente uma região qualquer. A primeira coisa que o novo editor-chefe faz quando chega na cidade é se encontrar com o arcebispo, um encontro que até parece alguma coisa parecida com o que ocorre na Inglaterra, quando o primeiro ministro eleito se encontra com a rainha. Mas não se trata apenas de formalidades. Muito pelo contrário: a Igreja a todo momento quer mostrar quem realmente está no poder e quais regras devem ser seguidas. E por isso é prazeroso ouvir Baron falando que o jornal deve ser independente.

Por ainda não estarmos necessariamente na era da internet e da informação correndo depressa, Spotlight é uma equipe pequena que lida com casos que demoram às vezes um ano de apuração, entrevistas e checagem com as fontes antes de ser publicado. E a equipe é bastante respeitada por outros jornais, basta notar o diálogo entre Mike Rezendes e um jornalista do Boston Herald, um concorrente mas que não é levado muito a sério por quem trabalha no Globe, que fora comprado no início dos anos 2000 pelo The New York Times.

Por isso, o trabalho de jornalista aqui é muito importante. E o roteiro escrito por Josh Singer e o próprio Tom McCarthy, com certeza influenciados por clássicos como Todos os Homens do Presidente (McCarthy repete os travellings característicos pela redação filmado por Alan J. Pakula em 1976), é bastante cuidadoso e coloca os jornalistas onde eles devem estar para conseguirem o furo de reportagem e contarem bem uma história: nas ruas. Assim, vemos a equipe correndo atrás de testemunhas, investigando documentos antigos, conversando com advogados que participaram do processo, ouvindo pessoas da comunidade e tendo um cuidado excessivo para que as informações não vazassem para jornalistas de dentro do próprio jornal e, principalmente, para a reportagem ter a cobertura que merecia e ser contada da forma correta.

É assim que McCarthy constrói a base de Spotlight, que é um filme sobre o jornalismo, e tudo que está envolvido nele, feito para jornalistas que com certeza se sentirão orgulhosos de se verem representados por aqueles personagens que ali estão. Além da tensão e da indignação que o roteiro consegue criar à medida em que a história vai sendo revelada, Spotlight tem um ótimo elenco que ajuda a contar esse caso. É surpreendente ver Liev Schreiber saindo daquele estereótipo de personagens que ele faz, normalmente mais fortes, para se transformar no editor que fala baixo e que às vezes parece acuado. Ao mesmo tempo, vemos os outros jornalistas e a maneira com a qual vivem intensamente a profissão, mostrando um entrosamento entre todos que fazem parte do elenco.

Isso sem falar na boa direção de arte (em uma cena é possível ver um outdoor do antigo provedor AOL, o que nos indica que realmente estamos no início dos anos 2000) e também nos efeitos sonoros, que Spotlight substitui os efeitos da máquina de escrever de filmes antigos sobre o jornalismo por papéis sendo rabiscados por canetas e lapiseiras por toda a redação – e não por acaso sempre vemos os jornalistas “tomando nota” sobre tudo o que as suas fontes dizem, informações cruciais que se transformaram em seguida numa reportagem que revelou os escândalos da Igreja Católica.

É assim que Spotlight se transforma em um filme obrigatório para qualquer jornalista, mas também para qualquer pessoa que precisa conhecer melhor essa história para ter uma noção dos fatos e de como eles aconteceram. É a chance de ver representado o trabalho árduo de jornalistas que dão sempre a impressão de que a única vida que eles têm é a de ser jornalista. E mesmo sofrendo de todos os tipos de intimidação e de ameaça, estão dispostos a correr atrás da verdade para revelar os mais diversos segredos que correm por este mundo, os transformando em figuras importantes dentro da nossa sociedade.

1 thought on ““Spotlight” é um filme de jornalismo feito sob medida para jornalistas

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