O dia em que eu conheci Martin Scorsese

Era um sonho. Desses que faz até você escolher uma profissão sabendo que através dela poderá ser mais fácil de atingí-lo. Não passou pela minha cabeça que a escolha de cursar Jornalismo serviria para, quem sabe um dia, estar frente a frente com uma das mentes mais brilhantes que o cinema tem o prazer de ter. Mas enquanto o avião descia para pousar no aeroporto de LaGuardia, em Nova York, tudo começou a fazer sentido. Eu havia estudado quatro anos na faculdade de Jornalismo para chegar àquele momento: o de conhecer Martin Scorsese.

Eu era um dos jornalistas convidados para um encontro rápido com o diretor por causa do seu novo filme, The Irishman (2018). Poucas vezes tive o prazer de participar de algo assim e eu estava tendo uma série de “primeiras vezes” acontecendo ao mesmo tempo. Não só estava sendo a minha primeira viagem a Nova York (e aos Estados Unidos), como a primeira participando de uma cobertura tão importante e que, logo de cara, já me dava a oportunidade de ver de perto não só Martin Scorsese, mas também Joe Pesci e Robert De Niro. Era uma reunião de Os Bons Companheiros, basicamente. E eu sabia que viver esse momento já teria compensado todo o esforço de chegar até aqui.

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Especial Scorsese: temas mais presentes em seus filmes

Violência, crime e gângsters são assuntos que aparecem na maior parte dos filmes de Martin Scorsese. Mas o seu cinema é muito mais profundo que isso e revela outros temas que compõe o que o torna um diretor tão fascinante. Em sua infância, Scorsese era um menino retraído e morador do bairro Little Italy, onde ele assistia através da janela da sua casa todo o tipo de problema. E ele cresceu tentando compreendê-los, levando essa experiência para os seus filmes com extremo vigor e performance artística.

Embora a violência, carregada pela máfia italiana, esteja tão presente nos filmes, é impossível comentar sobre eles sem falar em religião, fé, moralidade, isolamento e uma tentativa de substituição da figura paterna que, no fim, sempre acaba terminando em tragédia. Observar esses temas em seus filmes é como conhecer Scorsese como ser humano, tão cheio de questionamentos e conflitos quanto os próprios personagens que retrata. São esses os temas mais comuns:

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Especial Scorsese: seus filmes sob o olhar da cinematografia

A parceria entre diretor-fotógrafo deve ser uma das mais essenciais para fazer o filme dar certo, em qualquer nível. As visões dos dois precisam estar alinhadas para juntos criarem a linguagem do filme, o humor, o estilo e todo o resultado que acabamos assistindo na tela. Grandes diretores se notabilizaram também pelo bom relacionamento com um diretor de fotografia responsável por colocar a visão do cineasta em cada quadro. Por exemplo: Bernardo Bertolucci e Vittorio Storaro (O Conformista, O Último Imperador e Último Tanto em Paris); Alfonso Cuáron e Emmanuel Lubezki (Gravidade e Filhos da Esperança); ou Woody Allen e Gordon Ellis (Annie Hall e Manhattan).

E com Martin Scorsese não foi diferente. Por isso resolvi citar a parceria do diretor com quatro cinematógrafos e a importância que cada um deles teve para a linguagem que o autor estabeleceu em seus filmes, influenciando uma geração de jovens cineastas e filmes que tentavam implantar a mesma dinâmica. Porque é impossível falar dos filmes de Scorsese sem citar a força das imagens de Touro Indomável (Michael Chapman), Os Bons Companheiros (Michael Ballhaus), O Aviador (Robert Richardson) ou Silêncio (Rodrigo Prieto). Cada uma das obras fotografadas por esses diretores é um modo de enxergar a visão de Scorsese para a sua narrativa, sendo também um passeio pela própria história do cinema. Em cada detalhe de um quadro, Scorsese e o seu diretor de fotografia deixaram a sua marca. E é isso que vamos discutir agora.

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Especial Scorsese: quatro elementos visuais marcantes de seus filmes

Cada filme do diretor Martin Scorsese, como estamos vendo à medida que mergulhamos em sua carreira e filmografia neste especial do aniversário de 75 anos do autor, é cuidadosamente criado para que cada cena tenha o seu próprio ritmo, estabelecendo um diálogo que cria a composição entre o que está sendo contado e elementos como edição, som e câmera (fotografia).

Se tem algo que Martin Scorsese gosta de fazer é ensinar para plateias jovens toda essa visão que ele tem sobre os filmes (sejam dirigidos por ele ou não). Por isso, em 2013, ele foi chamado para a aula inaugural do John F. Kennedy Centre da qual ele intitulou como “Persistence of Vision: Reading the Language of Cinema”¹ (trívia: ele foi o primeiro cineasta a falar nesta aula desde a inauguração em 1972). Nesse evento ele comentou sobre os quatro elementos que guiam o seu trabalho.

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Especial Scorsese: Os Bons Companheiros (1990)

Considerado pelo crítico Robert Ebert como um dos dez melhores filmes da década de 90, Os Bons Companheiros foi costumeiramente chamado pela crítica de “o filme mais realista sobre a máfia de todos os tempos”. Completados 25 anos do lançamento no dia 21 de setembro de 2015, quando ganhou uma versão completamente restaurada, o filme dirigido por Martin Scorsese se transformou no clássico que naquela época alguns já apostavam que seria. Mas essa não era uma clara evidência.

Durante os testes de estúdio de Os Bons Companheiros, houve relatos de pessoas abandonando a sessão e da plateia ter ficado, como um todo, extremamente agitada com as cenas que viram. Quando estreou, no entanto, Os Bons Companheiros deixou a sua marca de sucesso de bilheteria e aclamação por toda a crítica que no fim lhe rendeu seis indicações ao Oscar. Deveria ter vencido como Melhor Filme, perdendo para Dança com Lobos, mas premiou o ator Joe Pesci com a estatueta de Melhor Ator Coadjuvante, e por redefinir um gênero que, desde então, nenhum outro filme conseguiu superar.

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