Inesquecíveis 020 – Cléo de 5 às 7 (1962)

Quando se fala em Nouvelle Vague, o famosa movimento da “nova onda” francesa, surgem os nomes de sempre como Jean-Luc Godard, François Truffaut ou Jacques Rivette como os grandes precursores que elevaram o cinema no país. Em nenhuma dessas listas se inclui o nome de uma mulher: Agnès Varda. Talvez a explicação mais certeira seja por causa do machismo imperativo daqueles dias. A verdade, no entanto, é que Agnès Varda se mostra uma diretora tão singular quanto Godard e tão sensível quanto Truffaut. E já em seu segundo filme, Cléo de 5 às 7 (1962), a cineasta revela justamente essas duas facetas.

Além de dirigido, Agnès Varda também escreve o roteiro desse longa-metragem que se caracteriza pela angústia de acompanharmos duas horas da vida da protagonista Cléo (Corinne Marchand) em um momento de muitas incertezas na sua vida. Esperando um importante diagnóstico que poderá indicar que ela sofre ou não de um câncer terminal, Cléo tenta se amparar em qualquer coisa que a faça ter esperança de que o resultado possa ser outro – ou mesmo que lhe faça esquecer por um momento a angústia da espera. E por causa do drama que vive, Cléo observa o mundo a sua volta de uma forma diferente.

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Inesquecíveis 019 – Alice Não Mora Mais Aqui (1974)

Há uma história particular por detrás de Alice Não Mora Mais Aqui (1974) que descobri muito depois de ter visto o filme. A atriz Ellen Burstyn, que ganhou o Oscar de Melhor Atriz por sua atuação no filme, encontrou o roteiro do longa-metragem e passou a trabalhar em cima daquela história e a procurar um diretor para filmar. Foi então que ela recebeu o diretor Martin Scorsese como referência (dica dada por ninguém menos do que Francis Ford Coppola), que havia acabado de filmar Caminhos Perigosos (1973). Burstyn conta que “apesar de ter gostado muito do primeiro trabalho de Scorsese, não acho que você saiba alguma coisa sobre mulher”. Scorsese, então, responde: “é verdade, eu não sei, mas quero muito aprender”.

Foi o suficiente para convencê-la de que tinha encontrado o diretor certo. E a jornada de Alice Hyatt (Burstyn) passa mesmo por uma curva de aprendizado que acompanhamos, marcada por despedidas, momentos trágicos, alguns tristes e outros também alegres. Não é somente ela que está se descobrindo como mulher aos 35 anos, mas os próprios espectadores também descobrem o que ela é capaz como mulher nessa idade, indo muito além do que ser a dona de casa que costura, cuida do filho e recebe o marido ao final do expediente com a mesa toda pronta, pronta para servi-lo.

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Inesquecíveis 018 – Blade Runner – O Caçador de Andróides (1982)

Não foi imediatamente, mas Blade Runner transformou-se em um clássico cult do gênero de ficção científica pouco tempo após o lançamento. Na época, o principal efeito foi o lançamento em VHS. Mas é claro que também por causa da reputação de Philip K. Dick (apesar de só receber maior atenção após sua morte em 1992), autor do livro “Andróides Sonham Com Ovelhas Negras?” (1968) que serviu de adaptação para o roteiro escrito por Hampton Fancher e David Peoples, cuja bibliografia nesse gênero vinha sendo construída desde os anos 50 e conquistado uma porção boa de leitores.

Mas possivelmente não estaria aqui falando sobre Blade Runner se o filme não tivesse virtudes que o colocassem como um dos principais do seu gênero até hoje, já pronto para receber uma sequência que estreia nos cinemas no dia 5 de Outubro. O filme dirigido por Ridley Scott é eficiente, não apenas porque prevê a paranoia que impera hoje num mundo tão virtual, mas também pela obsessão do ser humano no desenvolvimento da clonagem humana e em desbravar o espaço.

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Inesquecíveis 017 – Os Melhores Anos das Nossas Vidas (1946)

O cinema é (e sempre foi) também um bom instrumento de documentação da história. Não faz muito tempo, quando os Estados Unidos declararam guerra ao Iraque, o tema voltou à tona com muita força ao mostrar não só cenas do que acontecia nos conflitos, mas principalmente o comportamento de soldados que tentavam retomar suas vidas após retornarem para casa. Obras como O Mensageiro, A Volta dos Bravos ou Guerra ao Terror documentaram isso. E com certeza devem ter se influenciado não só pelas histórias verídicas contadas pelos soldados, mas buscado referências em clássicos como este, Os Melhores Anos das Nossas Vidas (1946).

Dirigido por William Wyler, que assim como os soldados que acompanhamos no filme, também tinha acabado de voltar para casa após atuar como documentarista de guerra e na realização de filmes motivacionais a convite do cineasta Frank Capra, Os Melhores Anos das Nossas Vidas acompanha três soldados que retornam à cidade natal deles após passarem por momentos realmente traumáticos e impossíveis de serem descritos. E os impactos que esses soldados começam a sentir são contados assim que eles pisam em solo americano.

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Inesquecíveis 014 – Cabra Marcado para Morrer (1984)

Quando o cineasta brasileiro Eduardo Coutinho escreveu as primeiras linhas do roteiro de Cabra Marcado para Morrer (1984) o filme deveria ter sido rodado normalmente em 1964 e contar a história do camponês João Pedro Teixeira, assassinado por ordem dos latifundiários que se autointitulavam donos das terras do interior de Recife. A ideia de Coutinho era fazer uma obra semidocumental com os próprios camponeses moradores da região interpretando suas próprias vidas.

Porém, o golpe militar de 1964 impediu as filmagens de Cabra Marcado para Morrer, com a equipe sendo cercada por militares que queriam prendê-los por acreditarem que estes eram “cubanos e comunistas”. Alguns conseguiram fugir, outros realmente foram presos. No meio da confusão, Coutinho conseguiu sair com parte do pouco material que havia sido filmado e mais algumas outras fotografias que deveriam fazer parte do filme. Ao retomar o projeto dezessete anos depois, Eduardo Coutinho reconta essa história e reencontra algumas daquelas pessoas que ele teve a oportunidade de conhecer na década de 60.

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